Uma arte completa sem obra concreta
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Uma arte completa sem obra concreta

Sheila Leirner

03 de novembro de 2016 | 16h18

“The Kiss”, Stedelijk Museum

O ser humano, o corpo e a voz. Eis a matéria-prima para a obra de Tino Sehgal que expõe no Palais de Tokyo (até 18 de dezembro), em Paris. Um trabalho que resta apenas na memória do espectador, assim como as suas nove apresentações de outono na Ópera desta cidade em companhia de dançarinos e dos coreógrafos Justin Peck, Crystal Pite et William Forsythe.

Este artista anglo-germânico, hoje uma lenda no mundo da arte contemporânea, recebeu carta-branca da instituição francesa para transformar o imenso espaço situado em frente do Museu de Arte Moderna da cidade (MAMVP) em uma «terra de ninguém», onde o que se ressalta é o espetáculo vivo e o jogo social.

Obra radicalmente imaterial

A exposição (gênero de mostra iniciado por Philippe Parreno há três anos) consiste em investir todo o espaço do Palais de Tokyo, ou seja, 13,000 m2 para criar uma experiência «imersiva», que é como se diz agora. Ninguém melhor do que este artista de 40 anos, filho de um indiano e uma alemã, que estudou dança e economia política, vive em Berlim, participou da Documenta de Kassel e ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza em 2013, para criar a experiência!

Sehgal transformou a instituição em praça pública, onde os visitantes fazem parte da mostra. Cerca de 300 participantes, benévolos de 8 a 82 anos, de médicos a sociólogos, de estudantes a aposentados, ensaiam há meses sob a batuta deste maestro incomum. Eles executam o seu projeto quase imperceptível, que fica no limite entre o real e o irreal. «O que é o enigma? », «O que é o progresso? », essas questões, entre tantas outras formuladas por alguns, ecoam em nossos ouvidos… A performance (palavra banida do dicionário deste artista) aqui é totalmente reinventada. A sua obra é radicalmente imaterial. Ela dá lugar, ao contrário, a situações «construídas».

Espetáculo vivo

Em outras palavras, este artista faz o espetáculo vivo entrar nos lugares da história da arte, museus ou galerias. Ali – onde normalmente a obra se encontra enquadrada, pendurada, arquivada -, ele impõe a figura humana, o corpo, a voz. Coloca em cena aqueles que define como seus « atores », coreografando-os numa espécie de teatro-dança. A sua peça Kiss (2002), por exemplo, mostra um jovem casal que reinterpreta os beijos na história da arte, desde Rodin até Jeff Koons, passando por Munch. Em This Situation (2007) ele pede aos seus atores para citar Montaigne, Rousseau, Marx, Nietzsche, Debord, Foucault… Mais recentemente surpreendeu o mundo da arte colocando em cena uma menina, encarnação de Ann Lee, personagem de manga libertado por Pierre Huyghe e Philippe Parreno, artistas com quem mantém constante troca estética e conceitual.

Um artista que não se submete ao mercado da arte

A troca com outros artistas é igualmente constante. Na presente mostra, Tino Sehgal presta homenagem ao cubano Félix González-Torres, falecido tão precocemente, com a sua imensa cortina de pérolas brancas e prateadas que «cai do céu». Além disso, Sehgal tem a audácia de vender obras imateriais sem deixar traços (recibos, etc.). Não produz nenhum objeto e não se submete às leis do mercado da arte. Cada espectador que «vive» a sua obra é responsável por esta experiência que pode, inclusive, fugir da autoridade do artista. E isto funciona às mil maravilhas. Há momentos em que as pessoas entram literalmente em transe coletivo, como aconteceu na praça Djema’a el-Fna, em Marraquexe.

No entanto, é preciso estar disponível para mergulhar nas exposições imaginadas por Sehgal. Deixar-se guiar e surpreender, dialogar face a face com desconhecidos, ouvir narrativas cheias de verdade, presenciar obras vivas em interação com o nosso corpo e sentidos. Quem conseguir entrar na frequência deste mundo flutuante orquestrado orgânica e magistralmente, conseguirá perceber a vibração de presenças, ausências, fantasias, revivendo as próprias e humanas lembranças. Uma experiência completa, sem obra concreta.

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