Todos os homens são homossexuais?
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Todos os homens são homossexuais?

Sheila Leirner

12 Agosto 2018 | 14h58

Não que eu defenda esta hipótese, mas seria ótimo se fosse provada. Os machões teriam que reinicializar o “aplicativo de gênero” e rever muita coisa, a partir do grau zero da masculinidade.

“O estupro de Tamar”, pintura de Eustache Le Sueur, 1640, representa a passagem da Bíblia em que Tamar é estuprada por Amnon, seu meio-irmão. (Wikipédia)

Os franceses estão chocados com as imagens divulgadas na mídia do “presumido” (é preciso lembrar que ele ainda não foi julgado) assassino do Paraná espancando a sua mulher no carro, na garagem, dentro do elevador do prédio onde moravam e, depois, ocultando as provas.

Mas o mundo inteiro está ainda mais escandalizado com as estatísticas gerais da violência contra as mulheres no Brasil: 60 mil estupros por ano (6 casos por hora) e 221.238 crimes de violência conjugal enquadrados na Lei Maria da Penha (25 casos por hora). E tudo isso apenas em 2017. O número de estupros cresceu 8,4% em relação a 2016.

Além do choque das imagens do vídeo e dos números, os europeus também deveriam ficar chocados com o que está por trás. O que esperam eles como “efeito derivado” de um território latino, alvo direto da onda conservadora, com uma bancada crescente de “bala”, “boi” e “bíblia” no seu Congresso, país de fato subdesenvolvido em educação, que renega a própria cultura, não tem memória, está muito longe ainda da necessária laicidade, é obrigado a votar e, além do mais, possui tradição machista? Esperam eles outra coisa desses milhares de homens que praticam estupro e violência conjugal em um país achincalhado, o terreno mais propício que existe para a misoginia, além do machismo?

Todos os homens são homossexuais

A teoria não é minha. Faz tempo que esta afirmação encontra-se na boca dos maiores psicoterapeutas e psicanalistas do mundo. Há livros de especialistas sobre o assunto. Até mesmo Platão e Freud estavam convencidos de que a bissexualidade seria inata.

Em seu apanhado de reflexões “A Vida material”, Marguerite Duras afirma:

“Os homens são homossexuais. Todos os homens possuem o potencial para serem homossexuais. Apenas lhes falta saber, encontrar o incidente ou a evidência que o revelará.”

Mesmo se dissermos que seria mais plausível a autora de “O Amante” acreditar em Papai Noel, ninguém pode negar que a convicção dela faz pensar…

O Gênesis, a narrativa das origens do mundo no Velho Testamento, diz que, criado por Deus à sua imagem, Adão procede da perfeição absoluta: ele é, ao mesmo tempo, masculino e feminino, o que não o impede de ficar entediado no Jardim do Éden.

Então, Deus o mergulha em sono profundo, tira uma de suas costelas e cria Eva, sua companheira, “a mulher”. Trata-se de um relato mitológico segundo o qual, cada um dos dois seres possui em si, de fato, componentes masculinos e femininos.

Pois este ser original, dotado de dois sexos, foi também evocado por Platão (428/427 – 348/347 a.C.) em “O Banquete”, onde o filósofo dividiu a humanidade em três categorias: o macho, a fêmea e o andrógino, designado lindamente como “filho da lua.”

E o pior (ou melhor) é que nada disso contradiz as descobertas muito posteriores da biologia. Se o sexo cromossômico do humano – XX para as mulheres, XY para os homens – é determinado desde a fecundação, o embrião demora a se diferenciar. Externamente, em um primeiro tempo, fica tanto masculino quanto feminino e é apenas durante o quarto mês de gravidez que, graças ao trabalho dos genes e hormônios, que os sexos fetais se formam.

De acordo com os nossos conhecimentos atuais, são os androgênios (hormônios sexuais masculinos) que desempenham um papel decisivo. Em quantidade suficiente, permitem que o feto se desenvolva como menino. Caso contrário, será uma menina. Poderíamos dizer, então, que o modelo feminino é o tipo humano básico, não?

Já segundo os “psi”, essa ausência de diferenciação embrionária seria encontrada igualmente em nossa psique. Sigmund Freud (1856 — 1939), em seus “Três Ensaios” sobre a teoria sexual, afirma que todo ser humano possui em si uma dimensão bissexual, em que as atrações por ambos os sexos coexistem. E que é somente durante o desenvolvimento afetivo e psíquico que uma das duas tendências – heterossexual ou homossexual – se afirma e assume a preponderância.

Misoginia: praga maior e mais destruidora

O fato é que a linha entre essas tendências é muitas vezes porosa. Sabe-se que tudo pode variar segundo o momento da vida, a idade, etc. As fronteiras do desejo sexual e do amor são flutuantes. E tão complexas quanto a natureza humana. Assim, se todos os indivíduos de sexo masculino fossem de fato homossexuais – dependendo, é claro, da mãe (e do pai) que tiveram – eles se dividiriam entre:

1) Homossexuais assumidos que amam as mulheres.
2) Homossexuais assumidos que não amam nem odeiam as mulheres.
3) Homossexuais assumidos que odeiam as mulheres.
4) Homossexuais não assumidos (ou não conscientes) que amam as mulheres.
5) Homossexuais não assumidos (não conscientes ou reprimidos) que não amam nem odeiam as mulheres.
6) Homossexuais não assumidos (ou reprimidos) que odeiam as mulheres. Sendo que estes, por motivos óbvios, seriam os mais violentos e perigosos.

Eis apenas um pequeno exercício simplificador (ou um capricho da imaginação) segundo a hipótese. Porém, seria ótimo se ela fosse provada. Os machões teriam que reinicializar o “aplicativo de gênero” e rever muita coisa, a partir do grau zero da masculinidade.

Na verdade, os franceses precisariam saber que o que está por trás dos números e imagens chocantes é a condição das mulheres num país aviltado como o Brasil de agora, onde  – nem todos felizmente, mas ainda – milhares de homens não conseguem e são até mesmo impedidos de se conhecer e lidar com própria sexualidade.

Até a próxima, que agora é hoje e nenhum aspecto da luta feminista poderá vingar enquanto a misoginia, uma praga muito maior e mais destruidora do que todos os racismos somados, não for discutida, entendida e denunciada, mesmo e sobretudo no Dia dos Pais!

Cena de Banquete. Vaso antigo, cerca de 480 a. J.-C. (Museu do Louvre).

 

São João Batista (Leonardo da Vinci), onde coexistem as naturezas feminina e masculina.

 

O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873), Alte Nationalgalerie, Berlim.