Selfies de um anjo não-fotógrafo, como os artistas devem ser
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Selfies de um anjo não-fotógrafo, como os artistas devem ser

Sheila Leirner

31 Julho 2016 | 19h29

Francesca Woodman © Betty and George Woodman

Eis uma fotógrafa como uma fotógrafa deve ser: uma não-fotógrafa. Uma artista, cujas imagens fazem esquecer a fotografia, tão pouco importantes tornam-se a técnica e até mesmo a “linguagem fotográfica” perto dos recônditos de alma que elas têm a revelar.

A exposição On Being An Angel (Sobre Ser Um Anjo) de Francesca Woodman, na Fundação Henri Cartier Bresson em Paris, terminou hoje, mas sei que a forte impressão que ela me causou continuará.

Apenas algumas dezenas de tiragens, a maior parte em preto e branco e de pequeno tamanho, provocam uma espécie de combustão de retardamento, distilando a sua perturbação de maneira insidiosa. Não se entra no mundo de um anjo anodinamente, sobretudo quando ele tem as asas quebradas.

A carreira de Francesca foi breve. Breve demais. Nasceu em 1958, em Denver, numa família de artistas. Com 13 anos, ganhou o seu primeiro aparelho fotográfico e estudou em várias escolas americanas e européias. Entre 1972 e 1981 realizou 800 clichês, expôs em Roma e Nova York, onde morou a partir de 1979, compôs o livro Some Disordered Interior Geometries – um tipo de poema elegíaco contemporâneo – e se matou. Defenestrou-se, aos 22 anos.

Como a morte, tudo que é invisível – e habitualmente escapa ao conhecimento e à percepção humana – é a obsessão da artista. Por causa da fragilidade e fugacidade do tempo, as fotos de Francesca Woodman vão bem além do auto-retrato à maneira de Cindy Sherman, Marie Ellen Mark ou Dorothea Lange. São selfies de um anjo, seu tema recorrente. Anjo caído do paraíso. Selfies da alma.

O que fascina também em seu trabalho fulgurante é a forma como ela se inscreve, talvez mais por intuição do que por conhecimento (que sem dúvida ela tinha), nas grandes correntes da história da arte. As referências são várias, inclusive ao minimalismo que ela humaniza com a sua própria presença. A serialização nas fotos em que integra textos, fazem pensar em Duane Michaels. Tudo isso, entretanto, numa linguagem absolutamente única e pessoal. Um prodígio.

Como diz a escritora Anna-Karin Palm, na apresentação do catálogo, a obra de Francesca Woodman é “furiosa, insolente, lúdica, sensível, sonhadora, melancólica, rebelde, humorística, dolorosa, investigativa e vibrante.” Em suma, tudo que não vejo, há lustros, na fotografia da nossa época.

Até a próxima que agora é hoje e, no futuro, por felicidade, o único “senhor das coroas de louros” será o tempo!