São Paulo e a ‘merda’ do professor Bardi
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São Paulo e a ‘merda’ do professor Bardi

Sheila Leirner

25 Janeiro 2017 | 16h59

Há 35 anos, para protestar contra as pichações nos muros do Masp, Pietro Maria Bardi (1900-1999), então seu diretor, escreveu a palavra “merda” com brocha e tinta vermelha sobre a mureta em frente ao número 1578 da avenida Paulista. Bardi foi um senhor de “vieses machistas”, segundo a sua ex assistente, “sobretudo quando via uma mulher despontar no mundo da crítica de arte, como Aracy Amaral e Sheila Leirner, até mesmo para provocar polêmica.” Eu que, é claro, não podia estar de bem com aquele velho admirador de Mussolini ainda mais, no mesmo dia em que ele pichou “merda”, escrevi este texto que republico hoje, atualizado, oferecendo-o à minha cidade natal no dia do seu aniversário.
A pichação de Pietro Maria Bardi, em 1982

A pichação de Pietro Maria Bardi, em 1982, na mureta do Masp. Foto de arquivo.

Pichação. E o respeito ao homem?

“Devemos trazer a história às palavras, não levando em consideração ‘o que dizem os homens’, mas com a atenção voltada às imagens que a sua própria movimentação desenha…” (Jean-Pierre Faye)

Esta análise crítica radical que o escritor, poeta e filósofo Jean-Pierre Faye desenvolveu brilhantemente em seu estudo Linguagens Totalitárias, no período fascista (1972), não é apenas uma nova sociologia de linguagens ou uma metodologia livre e criativa para a pesquisa inovadora do jovem historiador. É principalmente mais um exercício de disciplina democrática que enfatiza o respeito e a reflexão que se deve dedicar a qualquer gesto registrado pelo ser humano. Seja ele um gesto gratuito, compulsivo ou mesmo apenas artístico; seja ele político, mecânico, ou de pura propaganda, como as pichações que suscitaram tantas discussões em 1982.

Este é um exercício que, sem dúvida, não elimina o nosso sentido crítico e a consciência da negatividade que certos atos podem ter sobre a integridade e o equilíbrio do homem e do seu ambiente. Mas que pode, por outro lado, nos tornar mais tolerantes, evitando entre outras coisas que clamemos pela repressão, ainda que durante tantos anos tenhamos lutado justamente contra ela.

Se soubermos apreender os gestos humanos, sobretudo como imagens anônimas – aquela “germinação inumerável” da qual, segundo Dubuffet, “a chamada ‘cultura’ deveria gostar mais” -, se soubermos encarar esses atos como formadores de uma realidade viva, palpitante e não mumificada entre os quatro cantos de um museu, saberemos também como agir, usando o nosso sentido amortecido de comunidade.

O consenso público, a ação coletiva e, consequentemente, o auto regulamento conjunto de uma comunidade têm mais poder do que qualquer ação repressiva imediata. Trocando em miúdos, o poder da comunidade no controle da propaganda em forma de pichação – se ela a julgar nociva a si ou à sua cidade – é sempre maior do que o de uma autoridade qualquer, um prefeito ou algum indivíduo que resolva por conta própria lutar contra isso com as mesmas armas, como o fez o professor.

É claro que para os que acreditam realmente na liberdade de expressão, seja ela da arte, da imprensa, da política, da propaganda etc., a história deve ser feita igualmente do que “dizem os homens” e do que fazem os homens. Entretanto, dissociar radicalmente na história, como Faye, as imagens das palavras tem a grande vantagem de mostrar – como numa lente de aumento – que as imagens não são menos precisas e vivas do que os fatos.

Mas essa postura ainda vai mais longe. Ela pode revelar também a fragilidade da retórica do poder e da repressão e, o que é mais perigoso ainda, pôr em xeque estruturas ideológicas profundas e sedimentadas. Afinal, são as imagens – e não as palavras – que remetem sempre à ideia fundamental.

A pichação nunca é anacrônica.

Não é surpresa, portanto, que uma pichação, seja ela qual for, constitua um incômodo e um perigo para a tranquilidade do poder instituído – não por seu conteúdo (muitas vezes situacionista ou inofensivo), mas por sua forma anárquica de expressão. E que seja justamente nos períodos de maior mudança que ela se manifeste. A pichação pode independer da própria mensagem. É, talvez, mais importante o que ela representa do que o que revela. Pichações são as “imagens” que dão a dimensão da energia dos fatos que formam cada período da nossa história.

Os grafíti simbolizam abertura política, esperança e liberdade. De modo geral, são sucessores dos cartazes, o recurso metropolitano de linguagem mais popular e espontâneo usado nos séculos 20 e 21. Convivendo com os outdoors, os pôsteres de rua e a massa de informações visuais industrializadas e de consumo, representam sobretudo aquele conjunto artesanal de imagens que a movimentação do homem naturalmente desenha.

É óbvio que a pichação política (partidos, candidatos etc.) – condenada pelo professor Bardi – não era um ato artístico, assim como não são arte as propagandas de comerciantes particulares etc. Também as imagens próximas da arte de alguns tipos de alienados, da arte “bruta” definida por Jean Dubuffet (como os grafíti, rabiscos, obscenidades em banheiros públicos etc.), são produzidas sem a intenção de fazer arte. Só que são produzidas como gestos, sem nenhum interesse, senão a própria asserção e comunicação individual. Desabafos, válvulas de escape de uma camada massacrada quer pela repressão familiar e social, quer pela especulação imobiliária; ou simples ações gratuitas, esses “sinais” são quase sempre lineares e monocromáticos.

Por outro lado, as imagens intencionais “de arte” (como as intervenções arte in situ e projetos de integração à arquitetura e à vida urbana) têm os mesmos objetivos democráticos e raízes eruditas que as atuações panfletárias, próximas dos cartazes políticos e “artísticos” cuja “tolerância repressiva” por parte das autoridades comunistas foi tão bem definida por Marcuse. Os conhecidos grafíti e street art nos bairros de minorias raciais e gentrificação nas grandes metrópoles, por sua vez, são provavelmente a maior massa de arte intencional e espontânea e, ao mesmo tempo, a maior exposição coletiva de arte folk que já teve lugar no Planeta.

A pichação como arte tem o seu lugar bastante definido dentro das chamadas artes plásticas, sempre em direção a um objetivo antiautoritário e, simultaneamente, à efemeridade e desmaterialização do objeto. E, surpreendentemente, nunca é anacrônica. A participação do espectador, os happenings, eventos, ações, arte na rua, jornais murais, pinturas murais comunitárias, os próprios grafíti individuais – todos com raízes profundas na Bauhaus, construtivismo, arte cinética, arte social, ambiental, urbana, cívica, pública etc. – continuam a representar o mesmo pluralismo e a interdisciplinaridade que ainda caracterizam muitas formas contemporâneas de arte.

A pichação faz parte da mixagem de estilos, atitudes, ideias e, da mesma forma que muitas atividades artísticas de agora, rompe com os limites da arte monolítica tradicional. Até a próxima que agora é hoje, e a ‘merda’ do professor Bardi já ficou para trás!