Rosenberg, teórico e “guru” de Hitler. Lembra alguém?
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Rosenberg, teórico e “guru” de Hitler. Lembra alguém?

Sheila Leirner

15 de abril de 2019 | 12h38

Uma brasileira que diz morar nos Bálcãs e transita por Facebook, rede agora mais antissocial do que social, viu o último talk show do ex-BBB em Virgínia e “gostou”. Imagino que não foi a única. Enquanto isso, Alain Soral, teórico franco-suíço, ideólogo da extrema-direita (também vindo da esquerda e perturbado mentalmente) foi condenado esta manhã dia 15, em Paris, a um ano de prisão fechada por ter negado o Holocausto.

Na comédia ou tragédia greco-latinas, Histrião era o nome que se dava ao ator que representava as farsas populares da época. Os primeiros apareceram cerca de 363 a. C. Não podiam adquirir os direitos de cidadãos romanos, portanto eram considerados “infames”. No dicionário, a palavra significa bufão, palhaço, farsista e, pejorativamente, “pessoa vil, pela abjeção dos atos que pratica”.

O programa gravado em Virgínia teve pouca audiência. Foi dedicado àquela espécie de Dietrich Eckart, ou melhor, Alfred Rosenberg da cúpula bolsonarista. Para quem não sabe, Eckart foi o influenciador de Hitler; e Rosenberg, o seu teórico e mentor, que também podemos chamar de “guru” uma vez que o nazismo constituiu igualmente uma espécie de seita, baseada na paranoia de teorias conspirativas como “Os Protocolos dos Sábios de Sião” que agora, no Brasil, pelo jeito pode tomar a forma inversa.

Sim, porque é como se o “guru” de Virgínia, junto com Bannon, servisse a um plano ideológico maquiavélico, uma espécie de versão (inversão) tupiniquim: em vez de perseguir os “judeus-bolcheviques” e o povo israelita em geral, trava-se amizade com eles para o uso de seus bens e suas conquistas, e rouba-se a sua história e cultura, tanto com “distorção” dos fatos que é uma forma de “negacionismo”, quanto com a “absolvição” do Holocausto.

Apesar de algumas ideias divergentes, encontramos vários pontos comuns em Alain Soral, think tank “intelectual” de Marine Le Pen. Ele também veio do Partido comunista, ficou durante um tempo em hospital psiquiátrico, foi igualmente acusado de “incitação ao ódio extremo”, odeia feministas, homossexuais e ideias comunitárias. Hoje, foi condenado a um ano de prisão por negacionismo. A França democrática dos direitos humanos está satisfeita com a decisão, os simpatizantes de Soral pensam que é injustiça. Estes aplaudem o seu populismo e sobretudo o seu combate ao pensamento politicamente correto, considerando-o “insubmisso e revolucionário”. Lembra alguém?

“Confissões de um paquerador” (2001), o único longa-metragem realizado por Alain Soral. Na foto, um dos atores, Saïd Taghmaoui. Lembra alguém?

Quanto à grande semelhança dos dois guias alemães, Eckart e Rosenberg, com o “guru” tropical entrevistado pelo ex-BBB, é que eles também queriam perseguir os comunistas. E as pequenas diferenças são que os mentores de Hitler tinham diploma, não conheciam astrologia, não possuiam coleção de armas e não inventavam que o seu objetivo estava “além da política do dia”.

A respeito de Soral, há mais de uma década que ele vem sendo condenado por difamação, injúrias raciais, provocação de violência, discriminação, apologia de crimes de guerra e contra a humanidade, e nostalgia do passado um pouco no gênero “apologia da tortura e do golpe de militar de 1964”. Lembra alguém?

Sobre o programa da Globo, a brasileira dos Bálcãs escreveu: “acho ótimo conhecer o pensamento de pessoas que pensam diferente de mim.” E acrescentou: “Agora podem me apedrejar”. Como sou contra apedrejamento, penso que ela só mereceria o castigo de muitos anos de estudo e reflexão forçada, coisa que para certas pessoas é suplício pior do que apedrejamento. Apesar de todas as dúvidas que tenho sobre o poder da educação contra a burrice…

Patchwork de baboseiras

Também assisti à tal entrevista, percebi a enrolação, o desarrazoado dos argumentos com base em supostos “estudos sobre fenomenologia do poder”. Também tive a paciência e o cuidado de me debruçar sobre alguns livros, publicações e assistir aos vídeos. Não encontrei NENHUM “pensamento”, nenhuma ideia original, nada, zero, absolut nichts. Nem para hoje, nem para “os próximos séculos” como ele afirma. Apenas repetições. Um patchwork de baboseiras.

É bom não confundir “pequenas opiniões” dentro da construção de um delírio paranoico, com dedução lógica e menos ainda com “pensamento”. Dá para entender perfeitamente porque tantos adoecidos – depois do trauma com os últimos governos – se identificaram e continuam engolindo qualquer pílula que o “professor” receita.

No entanto, mesmo se eu estivesse de acordo com as pequenas opiniões deste Rosenberg de Virgínia, não conseguiria, como a brasileira dos Bálcãs, me cegar quanto ao personagem que é tão escancaradamente evidente. Quando se tem alguma familiaridade com os grandes pensadores da modernidade– não falo dos garotinhos midiáticos do século 21 – é impossível não rir do insultuoso comediante, orgulhoso desmedido, histrião majestático, megalômano burlesco, ambicioso arrogante, cabotino que acredita que vai mudar a história e se autodenomina “maior escritor vivo do país”. Jamais se viu um verdadeiro “grande” dizer isto de si mesmo, sim?

Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Henri Bergson, Jürgen Habermas, Pierre Bourdieu, Max Weber, Jacques Lacan, Emmanuel Kant, Roland Barthes, Zygmunt Bauman, Gaston Bachelard, Sigmund Freud, G. W. Friedrich Hegel, Martin Heidegger, Karl Marx, Hannah Arendt, Claude Lévi-Strauss, Jean Baudrillard, Peter Sloterdijk, Slavoj Žižek, Karl Popper, Félix Guattari, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jean‑François Lyotard, Alain Badiou, Michel Foucault, Judith Butler, Umberto Eco, Giorgio Agamben, Jean-Paul Sartre, Louis Althusser, Maurice Merleau-Ponty, Friedrich Nietzsche, Mircea Eliade, Arthur Schopenhauer, tantos outros…

O mundo ganhou verdadeiros pensadores, a República francesa quer ver intelectuais canalhas na cadeia e a cúpula bolsonarista ganhou, muito devidamente, um Napoleão de hospício. Até a próxima, que agora é hoje, o povo e a cultura brasileira não merecem isso mas, por sorte, ele não ficará!