Por que a “escultura cinética” da chama olímpica não é arte?
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Por que a “escultura cinética” da chama olímpica não é arte?

Sheila Leirner

10 Agosto 2016 | 11h18

Anthony Howe

 

Agora posso esclarecer sem esforço o que penso da soi-disant “escultura cinética” que acompanha a chama olímpica. Encontrei uma forma bem simples, apenas na troca de mensagens por WhatsApp, com uma querida jovem pessoa. Ela me enviou o link para um vídeo de Anthony Howe há meses, muito antes da abertura dos Jogos Olímpicos, quando ninguém sabia que Howe seria escolhido pelos diretores criativos da cerimônia:

– “Sheilinha, veja que lindas obras de arte!”

– “Obrigada, querida”, respondi. “É bonito, mas é só bonito, ‘de efeito’. Pra mim, não é arte.”

– “Nossa! Achei super lindo…”

– “Também acho lindo, mas parece próximo da decoração. Ficaria perfeito numa festa ao ar livre, não?” (que premonição a minha!)

– “Porque não é arte?”

– “Esse tipo de trabalho cinético já foi feito de maneira muito mais complexa e relevante por músicos, poetas e verdadeiros artistas. Além do mais, você reparou como o vídeo é comercial? O site oficial, então, é mais ainda! Serve para vender os ‘produtos’ aos americanos, como se fossem belos enfeites, bibelôs cinéticos gigantes de jardim. Tem até um formulário de pedido com o precinho camarada inicial de 250 mil dólares, para os ‘mais simples’. E ele diz, no final, que ‘não aceita encomenda de trabalhos pequenos’ (!?)”

– “Mas o Howe tem que vender pra viver!”

– “Claro! Só que eu e você não precisamos, e não devemos, saber que ele tem que vender pra viver, sim? E que ele precisa de 250 mil dólares multiplicados pelo número de ‘esculturas públicas’ que afirma que está vendendo a milionários (ou a eventos milionários como os JO, pensei agora). Você conhece um verdadeiro escultor com preço no site oficial e ‘formulário de pedido’ para os seus objetos? Jean Tinguely, Abraham Palatnik, Julio Le Parc ou Calder fizeram isso? Os verdadeiros artistas vendem, é claro, mas são mais discretos e elegantes. Não fazem as suas obras parecerem ‘produtos de venda por correspondência’, como Howe.”

“Em vez de capturar Pokémon, você pode caçar artistas de mentira…”

No dia seguinte, a minha jovem querida pessoa enviou o link para um vídeo de Theo Jansen, artista que, ao contrário de Howe, é engenheiro e inventor, cria esculturas/criaturas autônomas que se movem por meio de energias naturais, e se inspiram na teoria da evolução genética.

– “Sheila, veja essas esculturas! Achei incríveis… Será que são arte?”

– “Talvez estejam mais perto da ciência… mas, pelo menos, não estão no mundo para causar ‘transe’, ‘hipnotizar’ como as outras. Não são ‘produtos’. Ao menos, Jansen não é ‘decorador’, ‘artesão’ ou ‘fabricante de efeitos especiais’. Penso que, como certos cientistas, é um artista, sim. Assisti à conferência dele. Para o seu trabalho existe um real ‘programa’.”

– “Me explica melhor?”

– “Aqui mesmo, por WhatsApp?”

– “Sim…”

– “O que quer que lhe explique?”

– “Como a gente sabe quando existe ou não um ‘programa’?”

– ‘Se você pergunta é porque já entendeu que é justamente disso que a arte depende para ser ou não arte. Quando existe ou não, só se sabe com certa prática… não há regras.”

– “Parece jogo.”

– “É um jogo! Em vez de capturar Pokémon, você pode caçar ‘artistas de mentira’, de preferência espertalhões, que, por não possuírem programas estéticos, de certa forma são também ‘monstros (impostores) de bolso’.”

– “Hahaha! ??? Boa! Bjs, até +”

 

Até a próxima, que agora é hoje e levei 40 anos para identificar esses tipos de Pokémon não-artistas no meu Pokédex!