Piza, a morte de um convicto
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Piza, a morte de um convicto

Sheila Leirner

27 Maio 2017 | 07h39

Arthur Luiz Piza morreu ontem, sexta-feira, dia 26, aos 89 anos. É uma perda para a arte e também pessoal. Ele e Clelia foram, posso dizer, alguns dos poucos e estimados amigos que tive nesta cidade nos últimos 26 anos. Durante muito tempo visitei o artista em seu ateliê, estive em várias de suas exposições, acompanhei de perto a evolução do seu trabalho e compartilhei alguns momentos alegres do casal. A última vez que os vi foi em minha própria casa, quando se preparavam para mais uma estadia em sua linda residência no Vaucluse.

 

Arthur Luiz Piza em seu ateliê, 2012 © Jeanne Bucher Jaeger

 

A história da arte é formada, sobretudo, pelos fatos e pelas ideias artísticas. Porém ela é constituída também pela persistência de certos caminhos individuais, que acabam confirmando de alguma forma os movimentos coletivos. Pois essas procuras agem não apenas como transmissoras da energia e da experiência circunstancial e pessoal desses artistas, mas principalmente como elementos dialéticos de afirmação, definição e unificação da linguagem artística no tempo e no espaço histórico.

Equilíbrio entre contenção, prazer e erudição

Percursos como o de Arthur Luiz Piza, cuja objetividade e coerência se mantêm por meio do rigor e da convicção com que o artista encarava a criação, têm um papel preponderante em nosso processo histórico-artístico. Não que seus trabalhos sejam uma ruidosa tribuna de ideias revolucionárias, um silencioso e estoico campo de éticas, um monastério para misticismos, ou um terreno visionário de esoterismos e utopias. Ao contrário, sua obra não é radical. Ela possui apenas o clássico equilíbrio entre a contenção, o prazer e a erudição. Dentro da sua materialidade e modernas (não contemporâneas) qualidades formais, é uma arte avançada e essencial, que também pode falar de perto ao espectador comum.

Algumas obras são extremamente simples, diretas, manuais, seriais. Não há truques ou ilusões. Tudo está revelado, desde o processo criativo até o resultado final. Formam modulações, ritmos, densidades e volumes diversos, por meio dos materiais, sua disposição, uma escala cromática infinita, e também por meio das distâncias, posições e sombras manipuladas por ele.

Outras parecem monótonas e cinzentas, o que não passa de uma aparência. Comparadas às conhecidas gravuras coloridas em relevo editadas pela La Hune, não são belas, vistosas ou agradáveis. Mas esta foi a maneira de Piza trabalhar: ele sempre permeava o belo com peças mais rigorosas e agressivas. Em 1977, na galeria Arte Global, Piza mostrou trabalhos despojados, propositalmente malfeitos, livres de toda concessão possível, que por sua vez já seguiam o veio da produção de 1959 e de 1974, quando expôs na Petite Galerie, em São Paulo.

Além da essencialidade, que torna o trabalho de Arthur Luiz Piza acessível ao espectador, há para este sobretudo o grande estímulo de ser o partícipe “tátil”, visual e mental das múltiplas decisões objetivas e intuitivas do artista, e até do acaso que se origina delas. E de tomar parte, com isso, de uma linguagem abstrata, construtiva, de tradição concreta, mas hedonisticamente liberta e, portanto, viva no presente. Para sempre.

Até a próxima, que agora é hoje, dia de lembranças e tristeza!

 

Ateliê de Arthur Luiz Piza, 2012 © Jeanne Bucher Jaeger