Patrimônio da Humanidade: o que a Unesco não vê
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Patrimônio da Humanidade: o que a Unesco não vê

Sheila Leirner

18 Julho 2016 | 14h29

Depois de dois fracassos, em 2009 e 2011, finalmente a obra arquitetônica de Le Corbusier foi inscrita no Patrimônio Cultural da Humanidade, como a Unesco anunciou ontem por um tweet.

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As 17 obras agraciadas se repartem entre 7 países e foram realizadas durante meio século dentro do que Le Corbusier chamou de “procura paciente”.  Em ordem cronológica,  são as seguintes: as casas La Roche e Jeanneret (1923) em Paris e à beira do lago Léman (Suíça), a Cité Frugès (1924) em Pessac (Gironde), a casa Guiette (1926) em Antuérpia (Bélgica), as casas da Weissenhof-Siedlung (1927) em Stuttgart (Alemanha), a vila Savóia e a casa do jardineiro (1928) em Poissy (Yvelines), o prédio Clarté (1930) em Genebra, o prédio da porta Molitor (1931) em Boulogne-Billancourt (Haut-de-Seine), a chamada “cidade radiosa”(1945) em Marselha, a Manufatura (1946) em Saint-Dié-des-Vosges (Lorena), a casa do doutor Curutchet (1949) em La Plata (Argentina), a capela Notre-Dame-du-Haut (1950) em Ronchamp (Haute-Saône), a cabana de Le Corbusier (1951) em Roquebrune-Cap-Martin, o complexo do Capitole (1952) em Chandigarh (Índia), o convento Santa Maria da Tourette  (1953) em Eveux (Rhône), o Museu nacional de belas artes do Ocidente (1955) em Taito-Ku (Japão) et a Casa da cultura (1953) em Firminy (Loire).

Conjunto de Niemeyer foi inscrito mesmo assim

Os dossiês de candidatura são extremamente complexos e pesados  – um trabalho de muitos anos para cada site apresentado. Além da preparação dos lobbies, o candidato deve demonstrar que tudo está preparado para a sua segurança e conservação, com um enorme plano de gestão operacional, visando o acolhimento do público. São condições difíceis nos países que não possuem os meios.

Mesmo assim, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha de Oscar Niemeyer, construído em Belo Horizonte entre 1942 e 1943 –  e formado pela Igreja São Francisco de Assis, Museu de Arte da Pampulha, a Casa do Baile, o Iate Tênis Clube e também a Casa Kubitschek – também foi inscrito como Patrimônio Cultural da Humanidade. Estas construções, espalhadas em torno do lago artificial da Pampulha, compreendem projetos paisagísticos de Roberto Burle Marx, assim como obras de Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti,  dos muralistas Paulo Werneck e José Alves Pedrosa, e do escultor pré-cubista Augusti Zamoyski.

O que a Unesco não vê – 1

A Unesco não vê os problemas relativos nem a Le Corbusier nem a Niemeyer, o seu discípulo. Quanto a Corbusier, três livros, com minuciosas enquetes, comprovam a participação dele em círculos, partidos e publicações fascistas, ultranacionalistas, antiparlamentares, contra a democracia e a “degeneração da raça”, não raro ostentando um antissemitismo virulento.

Além de apoiar a extrema direita, Le Corbusier defendeu a eugenia social, simpatizou com os regimes totalitários, instalou-se em Vichy onde tentou vender as suas ideias ao regime de Pétain e, oportunista que era, sonhou encontrar Mussolini em 1934 imaginando, para seduzi-lo, uma noitada de projeção de diapositivos.

Os autores Xavier de Jarcy, François Chaslin e Marc Perelman apontam a ligação entre as posições ideológicas do arquiteto e os seus conceitos, evocando o contexto político no qual ele pensou, projetou, construiu e defendeu as próprias obras. E como as formas sempre veiculam ideias, todos convergem no afã de provar que a arquitetura de Le Corbusier é “um fascismo em cimento armado”. “Costuma-se dissociar as ideias de Le Corbusier do seu urbanismo e arquitetura, mas é tudo uma coisa só”, afirma Perelman.

Do ponto de vista de Corbusier, ademais, o corpo humano é uma massa musculosa, congelada para sempre, sob um registro definitivo e invariável: o Modulor.  Este sistema de produção de espaços, criado em 1943, baseado nas proporções de um indivíduo imaginário, não aceita que cada pessoa e cada corpo sejam diferentes uns dos outros. O fascismo e o nazismo, assim como o stakhanovismo stalinista ou o puritanismo neostalinista, repousam sobre uma corporeidade de massa bastante próxima.

O mais espantoso é que o próprio Le Corbusier sublinhava o laço orgânico entre as suas concepções urbanísticas modernistas e convicções políticas. O objetivo maior do arquiteto: “uma raça sólida, sã e bela”. A obsessão: “Aperfeiçoamento das cidades, edificação de uma sociedade ordeira, viril, higiênica e racional”. Os conselhos: “Classifiquem as populações urbanas, triem e rechacem os inúteis”. Sua vontade: “regularidade geométrica, limpeza e, se necessário, depuração.”

Aqui, estamos muito longe das liberdades e direitos do homem. E bem perto dos sonhos ditatoriais. As teses de Corbusier não correspondem em nada ao “humanismo” que aprendemos a ver no seu trabalho. Hoje, o “Plan Voisin” de destruir boa parte do centro de Paris, para construir 18 torres cruciformes de 200 metros de altura, “serenas, fortes e organizadas”, dá arrepios!

O que a Unesco não vê – 2

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José Alves Pedrosa, Pampulha.

Quanto à Niemeyer, para explicar o que a Unesco não vê, é preciso antes contar o que ela pensa que vê. Ela pensa que, como todas as grandes arquiteturas – a de Corbusier, por exemplo – a arquitetura dele também é uma “obra total”  e que, por isso, merece estar entre os patrimônios culturais da humanidade.

É verdade que, como certas artes “totais”, a grande arquitetura é complexa. Quem sabe mais intrincada do que o cinema, com o qual ela divide a posição de arte total do século 20, e o qual já no expressionismo alemão em 1919 ( com o “O Gabinete do Dr. Caligari”) atingiu o apogeu da direção “absoluta”. A arquitetura é a “arte total” do século 20, da mesma forma como o foram, nos séculos 13 e 14 as visões “acessíveis a todos os sentidos”, como as de Dante ou, mais tarde, as manifestações do renascimento com Leonardo da Vinci e depois Galileu. Igual ao teatro e a dança no século 18 (basta lembrar as representações megalômanas de Luís XIV em Versalhes), e a ópera no século 19, com sua função totalizadora, a Gesamtkunstwerk. A música wagneriana estava lá para provar.

Os exemplos não param aí, mas não quero cansar você com a ideia investida por Apollinaire e pelos futuristas, ou com o “homem total” inventado pelos dadaístas, o manifesto da Bauhaus, em 1919 (onde Gropius volta à carga do Gesamtkunstwerk). Também não quero tomar o seu tempo dizendo que foi a art deco e não a art nouveau que desempenhou, então, o papel de arte total. Apenas gostaria de lembrar que em 1920, Kurt Schwitters estendeu à arquitetura, ao teatro e à poesia a sua concepção de “arte total Merz”. Realizou a imensa “Coluna Schwitters” de gesso que invadiu pouco a pouco todos os espaços e andares de sua casa, a famosa Merzbau.

Pois bem, no século 21, é na Internet que, com a mesma complexidade, também começam a se desenvolver essas expressões. Afinal, na história da humanidade, os homens sempre perseguiram a utopia de juntar todos os campos do conhecimento em um só. Por isso, a arquitetura – não apenas nunca está inteiramente ao nosso alcance, como também jamais é completamente fundada na coerência, na “perfeição”, de suas partes. Mesmo que, paradoxalmente, esses campos de conhecimento não pretendam ser compartimentos estanques, uma vez que a arquitetura é justamente a arte da interação, interligação, interdependência, interinfluência e interdisciplina.

Logo, não é de nos admirarmos que o caminho de Oscar Niemeyer esteja cercado de controvérsias e que a sua própria figura pareça às vezes contraditória. Para ver a obra dele, só os arquitetos têm à sua disposição um instrumento fundamental, criado a partir de sua bagagem e experiência. Possuem a interface, ou seja, o dispositivo lógico que faz a adaptação entre todos os sistemas. Para os não-arquitetos, (e para a Unesco) Niemeyer é apenas o grande escultor do espaço que rompeu com os ditames dos ângulos quadrados, alguém que enriquece o patrimônio artístico do mundo. O que não é pouca coisa, mas não é tudo.

Infelizmente para Niemeyer, não existem apenas o público comum, a Unesco e os arquitetos. Há também os críticos de arte, os museólogos e os historiadores da arte. Estes poderão se interrogar se ele realmente amava, respeitava e sobretudo conhecia a arte que a sua “arte total” às vezes abriga. Ou, se talvez, rivalizava com ela. No livro de Jean Petit, Niemeyer, o Poeta da Arquitetura (Fundação Lina Bo e P.M. Bardi), o mestre afirma que se sentiu atraído pelo desafio da forma desde muito cedo: “Antes mesmo de ser arquiteto, eu já pensava em talhar esculturas no concreto armado. Sempre me senti atraído, desde jovem, pelas esculturas gregas e egípcias, a Vitória de Samotrácia; gosto das obras de Henri Moore e Heepworth, da pureza de Brancusi, das belas mulheres de Despiau e de Maillol, das figuras esguias de Giacometti”.

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Augusti Zamoyskina, Pampulha

Alguns poderão se indagar o que fazem, então, artistas como Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti, Paulo Werneck, José Alves Pedrosa, e Augusti Zamoyskina na “decoração” medíocre dos “templos niemeyerianos” como esses da Pampulha. Por mais que, com algum esforço (não nos “anjos volantes”, naturalmente), Ceschiatti se aproximasse de Maillol…  Não lhes deitavam sombra?

Como é que um arquiteto que não gosta, compete ou não compreende profundamente a arte, além de ser um mito, pode ser um bom arquiteto? E como é que um arquiteto de pensamento purista e megalomaníaco como Corbusier – que reivindica poderes de demiurgo nos seus vídeos, manuscritos e iconografia – para quem o novo homem é produto da cidade, condicionado, formatado e controlado 24 horas por dia – como é que ele, além de ser outro mito, pode ser um arquiteto “humano”?

Até a próxima que agora é hoje, e se é a Unesco que escolhe os Patrimônios Culturais da Humanidade, seria bom que a humanidade da cultura também se inscrevesse nos patrimônios escolhidos pela Unesco!