Pássaro? Avião? Não, apenas um super-curador!
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Pássaro? Avião? Não, apenas um super-curador!

Sheila Leirner

18 Abril 2017 | 07h38

Este é um complemento ao meu último artigo, porém não menos consternador. O texto anterior, Feiras e mercado de arte: um escândalo permanente” , falava do efeito que o mercado da arte pode ter sobre a arte, o artista e o público em termos de manipulação, o que reduz as obras a simples produtos imprimindo-lhes um valor artificial. Curiosamente, logo após a sua publicação, encontrei por coincidência (ou não) uma reportagem surpreendente que saiu há alguns dias no suplemento feminino de um jornal francês.
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Terno de lã (R$ 12.000) e camisa de algodão (R$ 4.600) Hermès. Gravata listada de seda (R$ 1.000) Charvet. Pinça de gravata dourada (R$ 1.000) Louis Vuitton. Coroa com efeito coral (R$ 1.300) J.W. Anderson, estojo para iPhone em couro (R$ 730), Chaos. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Foto: Mark Peckmezian

Na matéria, o agora célebre primeiro colocado da nauseante lista de 100 personalidades mais influentes no mundo da arte contemporânea (onde a “cotação” de pessoas fica em “alta” e “baixa”, sem que se saiba muito bem quais são os critérios), é transformado em garoto-propaganda glamour de marcas de luxo. Como o preconceito não orienta o meu julgamento, apenas nunca acreditei em listas e, em princípio, não tenho nada contra marcas de luxo, só aponto o que está ligado à dissolução, despropósito e obscenidade do mundo pseudocultural, irremediavelmente “peoplelizado”*, e que grande parte das pessoas toma como “representante legítimo” dos valores da cultura.

Pássaro? Avião? Não! Apenas Hans Ulrich Obrist (1968), HUO para os íntimos, curador que conheci nos anos 1990 quando ele sobrevoava Paris e aterrissava de tempos em tempos no Museu de Arte Moderna, fazendo pequenos estágios e realizando “encomendas” no departamento ARC (animation, recherche, confrontation) sob as asas de Suzanne Pagé, hoje diretora artística da Fundação Louis Vuitton.

 

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Terno de lã (R$ 7.000) e camisa de algodão (R$ 800) Canali em MRPorter. Manteau Oversized em lã (R$ 10.300), gravata de seda (R$ 600), pinça de gravata dourada (R$ 1.000), tudo Louis Vuitton. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Mocassins de couro (R$ 2.100) Church. Foto: Mark Peckmezian

 

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Terno de lã (R$ 11.000) Brunello Cucinelli nas galeries Lafayette. Camisa de algodão (R$ 700) Boss. Gravata de seda (R$ 1.000) Charvet. Malha oversized em lã merinos (R$ 7.526) Raf Simons. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Foto: Mark Peckmezian

 

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Terno de lã (R$ 6.700) e camisa de algodão (R$ 4.600) Zegna. Gravata de seda (R$ 1.000) Charvet. Kimono de seda bordada (R$ 50.000) Gucci. Pinça de gravata dourada (R$ 1.000) Louis Vuitton. mocassins de couro (R$ 2.100) Church. Estojo para iPhone em couro (R$ 730), Chaos. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Foto: Mark Peckmezian 

 

Terno Brioni, by Kering (R$ 15.000)

Até a próxima que agora é hoje e, para mim, a sensação de ver, desta maneira, pessoas “de espírito” que lidam com os “valores elevados da cultura, arte e humanismo”, seria um pouco como descobrir que a batina do Papa Francisco é Giorgio Armani, os sapatos vermelhos dele são Nike Air Jordan, o solidéu é Polo Ralph Lauren, o anel do pescador é Van Cleef & Arpels, a estola é Burberry, o cíngulo é Hermès e a cruz peitoral é Cartier. Tudo isso, vestido por quem escolheu o nome de um santo que fez voto de pobreza. Estranha sensação…

 

*Peoplelizado – neologismo anglicista que significa tornar-se “people”, celebridade ou personagem público que atira sobre si a atenção de mídia e público fúteis e superficiais.

 

Postscriptum, sem comentários

 

20 Hanover Terrace, Londres. Casa de Damien Hirst.

 

Damien Hirst em “festa Cointreau” com a namorada e uma amiga dela. Hoje, o preço. das obras deste artista para quem “o dinheiro é mais importante do que o amor”, ultrapassa o das telas assinadas por El Greco, Rubens, Canaletto, Courbet, Delacroix e Ingres.

 

Damien Hirst em “festa Victoria’s Secret”.