Para o dia do pai da arte moderna
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Para o dia do pai da arte moderna

Sheila Leirner

14 Agosto 2016 | 11h18

Paul Cézanne

Retrato de Madame Cézanne, Roy Lichtenstein (1962)

A arte moderna não é bastarda, como ainda se pode pensar. Ela é filha legítima de um só pintor, germinador de uma prole imensa que está viva até os nossos dias. Responsável até mesmo por aqueles que proclamaram a morte da pintura! Hoje, segundo domingo de agosto, por que não celebrar Paul Cézanne (1839-1906), que apesar do pequeno reconhecimento obtido em vida, depois foi descrito por Matisse, Picasso e Mondrian como o “pai de todos nós”?

Como é que um artista pós-impressionista, que nasceu há quase dois séculos, continua influenciando a arte até hoje? A explicação certamente encontra-se no fato de que Cézanne rompeu com todas as regras do academismo e, mesmo sendo figurativo e representando o mundo, encontrava formas totalmente novas para enxergá-lo. Com ele, tudo ficou para trás, inclusive a desordem e o etéreo do impressionismo que organizou e ao qual imprimiu solidez.

Toda a arte contemporânea pode ser encontrada em uma só tela deste pai.

Nesta Natureza morta com cupido de gesso pré-cubista, por exemplo, uma das minha favoritas, o artista simplesmente ignorou a realidade (e a profundidade) do espaço físico, criando um interesse dinâmico, completamente imaginário, para a composição. Dá para entender porque Cézanne foi rejeitado pelos salões e pelo público. A tela é desconcertante, quase “feia”, mas que liberdade!

Paul Cézanne

“Natureza morta com cupido de gesso”, Paul Cézanne (ca 1894)

Cézanne, portanto, não foi só o pai do cubismo. Foi também o precursor do abstracionismo e do que veio depois. Tanto, que muitos pintores do começo de século 20 nem sabiam mais o que fazer depois de terem visto o seu trabalho. “Não podemos ir mais longe”, diziam. No entanto, rapidamente, recuperaram o aspecto formal da pintura cezanniana, sobretudo as suas pinceladas e, como fazem os filhos, seguiram o próprio caminho. Agora, podemos dizer que a obra de Paul Cézanne está na origem da abstração geométrica e, no Brasil, até mesmo do concretismo. Toda a arte contemporânea pode ser encontrada em uma só tela deste pai.

Aos 89 anos, o americano Alex Katz, um dos últimos protagonistas da Pop Art ainda vivo, inaugurou há pouco na galerie Ropac em Paris, uma exposição com paisagens inspiradas por Cézanne. Pollock, Jasper Johns, Frank Stella (o chamado “Cézanne do niilismo”), Gerhard Richter, Roy Lichtenstein e mais recentemente Cory Arcangel, são apenas alguns “filhos” do mestre. Estes, pelo que têm em comum com ele, outros também pelo que rejeitaram de sua visão estética.

Cézanne e eu

Estreia no mês que vem, em Paris, Cézanne e eu, o meu tão esperado filme de Danièle Thompson (roteirista de “A Rainha Margot”  de Patrice Chéreau)  que retrata a amizade entre o pintor (com Guillaume Gallienne no papel) e Emile Zola (Guillaume Canet), mergulhando no mundo artístico da segunda metade do século 19, quando Manet, Renoir, Pissaro e Maupassant eram  jovens sem um tostão, em busca de sucesso.

Cézanne e Zola se amavam, como se ama na adolescência, desde que se sentaram lado a lado nos bancos da escola em Aix-en-Provence: revoltados, curiosos, cheios de esperanças e dúvidas. Partilharam sonhos de glória e mulheres. Paul  era rico, Emile muito pobre. Juntos, deixaram a província, foram à Paris, entraram na intimidade dos artistas de Montmartre e Batignolles. O assunto é pitoresco: na época, todos frequentavam os mesmos lugares, dormiam com as mesmas mulheres,  “cuspiam” nos burgueses, banhavam-se nus, passavam fome e depois se empanturravam, bebiam absinto, desenhavam modelos nuas de dia, as acariciavam à noite, e viajavam trinta horas de trem apenas para ver o pôr do sol. Cézanne conseguiu pouco, Zola alcançou tudo: nome, dinheiro, uma mulher perfeita que Cézanne já havia amado antes dele. Eles se julgam, brigam, se admiram. Separam-se quando o escritor publica “A Obra”, onde um dos protagonistas é um “pintor fracassado do sul” e o seu amigo se reconhece no personagem. Em seguida, voltam a ser amigos, como um velho casal que jamais deixou de se amar.

Até a próxima que agora é hoje, domingo dos pais, e ofereço este post a Cézanne!

Galeria de fotos: making-of do filme