O que é mais doloroso?

Sheila Leirner

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Pode-se chamar a destruição de um acervo artístico ou científico de perda material? Pode haver seguro, reconstrução ou substituição para a morte do elemento vivo da criação e da nossa história? O desaparecimento de um ser humano, imortal porque deixa reminiscência, é mais doloroso do que a morte da sua própria memória?

O Museu nacional do Rio de Janeiro em chamas, na noite de 2 de Setembro 2018. | AFP / STR /

São dois os níveis de compreensão para o desaparecimento do Museu Nacional do Rio De Janeiro, destruído pelas chamas ontem, dia 2. Um, o econômico, político e cultural. Outro, o filosófico.

Falar, portanto, sobre o prejuízo que significa o aniquilamento de um tesouro cultural, para um país que ainda se encontra em tão precária situação nesta área, seria o óbvio. Dizer que o ocorrido corresponde ao dano de uma sala histórica destruída em Versalhes, talvez fosse até impróprio. Afirmar que não existem recursos para a substituição ou restituição de um patrimônio cultural desta monta é cair na banalidade de uma evidência.

Do ponto de vista ético, no entanto, importa agora só a compreensão filosófica deste acontecimento lastimoso. É o momento em que fatalmente se questiona a fragilidade, não do homem, mas das suas manifestações e conquistas. Mesmo as que carregam a aura da imperecibilidade, o sentido de sua representação espiritual maior. Da mesma forma como aceitamos com resignação a transitoriedade da vida humana, para nós é extremamente difícil duvidar da perenidade da obra de arte, dos objetos e traços que deixamos, como ideias espelhadas. No seu sentido tradicional ou contemporâneo, tudo ainda parece representar a perpetuação do homem. Queiramos ou não, existe a noção de que os nossos testemunhos nos ultrapassam no tempo e no espaço.

A conhecida escultura do suíço Jean Tinguely, que se autodestruiu em alguns minutos, talvez tenha sido a primeira de todas as manifestações desmaterializadas da arte. Além de colocar em questão as características convencionais da arte tradicional, apresentava a obra verdadeiramente indestrutível. Na própria destruição estava a ideia da sua perenidade. Infelizmente, não é o que ocorre quando a nossa história e memória são imateriais e materiais simultâneamente.

Se assim não fosse, como explicar o sentimento de dor que nos invade ao saber da destruição real de coisas e valores às vezes por nós tão contestados? As ideias acabam por permanecer soterradas sob o metafísico e irreparável sentimento de perda, que não é mais do que um profundo e irracional sentimento de amor. O mesmo que gera o próprio ato da criação e também o da salvaguarda das nossas lembranças.

Até a próxima, que agora é hoje e será que a morte de um ser humano, imortal porque deixa reminiscência, é mais dolorosa do que a morte da sua própria memória?

Esta matéria foi inspirada no que pensei e escrevi na manhã de domingo, dia 9 de julho de 1978, na própria redação do Estadão, enquanto lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eu estava sob o choque da notícia do incêndio no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, desastre sem precedentes na história das grandes coleções de artes plásticas onde desapareceram duas telas de Picasso, duas de Miró e centenas de obras de artistas brasileiros colecionadas ao longo de 20 anos. De mil obras, restaram 50, e dos dois andares atingidos, cinzas. O sinistro do MAM atingiu dimensões jamais registradas. Além do acervo do museu, queimou-se toda a mostra Arte Agora II onde estavam expostos 205 quadros de pintores latino-americanos, entre eles toda a fase construtivista do uruguaio Joaquín Torres-Garcia, um período de quase duas décadas de criação.

 

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