O que é “arte contemporânea” ?
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O que é “arte contemporânea” ?

Sheila Leirner

14 Dezembro 2016 | 09h38

Quando saiu a minha análise pessoal acerca da 32a Bienal de São Paulo, no Caderno 2, onde tive a petulância de afirmar que “hoje sabemos perfeitamente o que é arte contemporânea”, um querido amigo – jornalista e fotógrafo – enviou-me uma mensagem, e com razão: “eu não sei perfeitamente o que é arte contemporânea”, disse ele. “Você acha que daria pra resumir, se é que isso é possível?”

“Sim”, respondi, “aceito o desafio mas, por enquanto, envio a você uma pequena resenha sobre a obra de Pierre Huyghe.” Não demorou 15 minutos e lá estava a resposta dele, cujo conteúdo confortava a minha convicção de que só a arte pode ser a medida de qualquer ação ou mediação crítica e curatorial.  Ele tinha ficado – e isso era também o que eu esperava da sua sensibilidade e inteligência – “impressionado com a dimensão, abrangência e riqueza que um trabalho de ‘arte contemporânea’ pode atingir”. Mesmo sem ter visto a retrospectiva apresentada há três anos pelo Pompidou, em Paris, o meu amigo “intuiu, apreciou, desfrutou”, segundo ele, “um pouco da complexidade e significados que esta arte pode proporcionar”. Metade do caminho, portanto, já fora andado.

Resumindo, então, para que a outra metade possa ser atravessada, o que seria “arte contemporânea”? Claro que se fosse por uma suposta lógica, poderíamos pensar que ela se confunde com a produção “de hoje”, aquela que “nos é contemporânea”. Também por força de ouvir continuamente a expressão, podemos nos enganar. Em todo caso, é normal que se aceite melhor uma pergunta do que a afirmação de algo que pensamos não conhecer ou, no pior dos casos, gostaríamos – por comodidade, facilidade, ou má-fé, – de ver eternamente indefinido ou em “crise”. Ora, indefinida ela não é, e em crise também não está. Como escrevi no artigo sobre a Bienal, temos testemunhado, em todo o mundo, “vigor e efervescência”.

Acabo de visitar, aliás, uma retrospectiva totalmente mágica e onírica do talentoso artista flamengo Hans Op de Beeck, no Centquatre, vibrante espaço de arte contemporânea, em Paris. A obra dele é desigual e tem alguns problemas, mas nem por isso deixa de ser, na maior parte das vezes, encantadora.

Hans Op de Beeck - Staging Silence

“Staging Silence”, a mágica instalação de Hans Op De Beeck, em sua retrospectiva (até o dia 31) no “Centquatre”, espaço de arte contemporânea em Paris.

Quase duas décadas depois da virada dos anos 2000 – e já que a “arte moderna” não é mais uma desconhecida, talvez seja tempo de descobrir (ou assumir) a definição, e existência como fato, da “arte contemporânea”, aquela que descende diretamente das vanguardas do século 20 (Duchamp principalmente), liberou-se das restrições estéticas tradicionais e chegou a pontos extremos.

Verdade que antes dos anos 1980, falava-se somente em “vanguarda”, “arte atual”, “arte ativa”, etc. Foi na década seguinte que o termo se impôs para designar a produção abalizada por uma crítica de arte reconhecida e instituições influentes como museus, bienais, documenta, mercado de arte e organismos oficiais de encomendas públicas.

Talvez o Brasil já fosse um país prospectivo, pois o nosso Museu de Arte Contemporânea (MAC) foi criado em 1963 quando a Universidade de São Paulo recebeu o acervo do antigo MAM ao qual a noção que temos hoje de “contemporâneo”, ainda não podia ser aplicada. Para se ter uma ideia, a abertura do inovador e formidável L.A. Temporary Contemporary Museum em Los Angeles data de duas décadas depois!

Se estivermos de acordo, num sentido mais polêmico, que o vocábulo veicula a ideia de uma acuidade e uma pertinência particulares em oposição ao que é banal ou ultrapassado, sobretudo contra os “valores modernos” (em crise), podemos inclusive encarar mais especificamente a arte (contemporânea) brasileira do século 21 como uma síntese. E o seu início, nos anos 1980, como uma antítese.

Naquele período, as nossas manifestações artísticas se opunham de certa maneira ao modernismo representado pelo concretismo e neoconcretismo dos anos 1950 e 1960 e à fixação tecnológica e cinética. Isto, além de recusar também as rígidas experiências que em seguida dominaram a criação na década de 70, o minimalismo que fetichizou a tecnologia e os trabalhos que se aproximaram da matemática, geometria e filosofia.

É apenas da velha arte Pop tropical e do “novo realismo” brasileiro (se é que podemos chamá-lo assim) com várias expressões – entre as quais se destaca o grupo Rex de São Paulo – que, idealisticamente, a “arte contemporânea” dos anos 1980 talvez se aproxime melhor.

Pessoalmente, vejo ‘A Grande Tela’ como uma premonição do que estava prestes a acontecer

Neste ponto, entra a questão da mundialização da cena artística, que de alguma maneira, para nós  – e para os americanos -, supriu uma certa “falta de história”, em comparação com os países do velho continente. Pessoalmente, vejo “A Grande Tela” (na 18a Bienal São Paulo, em 1985) como uma premonição do que estava prestes a acontecer. Em 1989, ano simbólico da abertura planetária da arte, dois eventos geopolíticos foram fundamentais: a queda do muro de Berlim e as manifestações chinesas na praça Tiananmen. Inaugurou-se também Os Mágicos da Terra de Jean-Hubert Martin, exposição célebre por ter colocado na cena internacional a arte “não ocidental”, mundial, pluralista e multicultural, que apagava as fronteiras geopolíticas. Uma “arte contemporânea” que tomou o lugar da chamada “arte internacional”.

Rússia, China, Índia, Oriente Próximo e América Latina tornaram-se as novas destinações da economia mundial da arte. A criação contemporânea ficou presente inclusive na África da qual até então, só se conheciam obras primitivas. Bienais e feiras sucederam-se não apenas como ocasiões “espetaculares” de exposição, mas de produção, dotando boa parte desta arte de mobilidade e volatilidade, separando-a dos “contextos locais”. Artistas e curadores passaram a “habitar o deslocamento”.

Outra grande conquista da época pós-minimalista (ou pós-moderna, se preferirmos) dos anos 1980, foi que a noção primitiva de escala, segundo a qual ela era apenas e exclusivamente uma questão de tamanho físico, ficou descartada. Não que esse conceito, válido em parte, pudesse ter sido inteiramente banido do nosso vocabulário com o renascimento da pintura. Mas os artistas lhe acrescentaram uma nova realidade. O efeito de um trabalho de arte contemporânea sobre toda a cultura, em termos de seu raio predeterminado de ação (até onde ele queria ir, os objetivos que tentava confrontar, e sobretudo a escolha de sua audiência), é o que se chamava de “medida artística”. E sem internet.

O fato é que a chamada ‘volta à pintura’ não foi uma volta

Da mesma forma como com a escala, e por mais “material” que pudesse parecer, adquiriu-se com relação à pintura contemporânea daquela época uma noção desmaterializada (não física), a partir de seus pressupostos conceituais, como intenção, objetivo, alcance, tempo, ação e conflito. Naquele momento, a pintura (pós-minimalista) não representava mais. Ela era. “Era”, não nos termos formalistas, qualitativos (ainda “modernos”) da hard edge mas como correspondente direta, não mediada, do pensamento, ação ou percepção do artista.

O fato é que a chamada “volta à pintura” não foi uma volta. Foi uma outra coisa. Uma coisa criada. Uma nova pintura que se estendeu além dos estilos e correntes, além do “expressionismo”, sobretudo do “expressionismo abstrato” e sua espiritualidade, ou do “pós-moderno”, trazendo a arte para mais perto do corpo. Não constituiu apenas uma reação, porém uma “salvação”. Preservava a liberdade de um pensamento do qual era a expressão triunfante. Bastou visitar as últimas Bienais de São Paulo ou passear por Inhotim recentemente, para descobrir que tal espontaneidade foi perdida para sempre.

Para a arte contemporânea da última década, paradoxalmente, volta-se a definir a escala como “proporção (física) de tamanho e medida”, coisa que foi o problema central da pintura realista e acadêmica. Volta a ideia de “tamanho”, desde sempre incrustada em nossa maneira de apreender a arte. Forma esta que se baseia não apenas na ética materialista do formalismo, mas na estética da Renascença.

No século 21, podemos dizer que a produção brasileira de vanguarda constitui uma espécie de resumo das práticas engendradas durante a última metade do século anterior. Face à globalização, a polaridade Rio e São Paulo, por exemplo, passa a não fazer mais sentido. Na pintura principalmente, não apenas os jovens, mas os menos jovens – os da geração 80 que frequentaram o Parque Lage, a FAAP ou os que se haviam dedicado à “pintura selvagem” como os artistas da Casa 7 – voltam-se agora às questões da tridimensionalidade, arquitetura, geometrismo, decoração, apropriação, história, gosto, estratégia, monumentalidade, impessoalidade… Outros dedicam-se ao anedótico, generalizador, ideológico, denunciativo, ao neo-formalismo, artistismo, sociologismo, politismo, etc.

Hoje os ideólogos praticam uma auto hipnose que provoca ‘cegueira artística seletiva’

Hoje, com o rumo tomado pela vida política e social brasileira, e suas catástrofes ecológicas, em boa parte do público, artistas e mídia encontramos os ideólogos de uma certa esquerda com a qual já fica difícil nos alinharmos. Estes são praticantes de uma espécie de auto hipnose que, se de um lado é compreensível, de outro é bastante preocupante pois provoca uma cegueira artística seletiva: só veem o que querem ver.

Caminha-se, portanto, para uma fixação sobre a sexualidade, o trabalho, a violência, temas ecológicos, etc. – como ficou evidente nesta 32a Bienal. Grande parte paradoxalmente diluída, adocicada, sentimental, sob o discurso da resiliência (que recupera e instrumentaliza as adversidades), prática enviesada do psicológica e politicamente correto. Uma espécie de raciocínio unidimensional, uma visão do mundo que – embora pareça apontar o “trágico” e o “mal” – abole toda negatividade, toda dimensão trágica da história da humanidade, da arte e do próprio homem. Trata-se, muitas vezes, da facilidade da “fuga na pele dos gatos”, onde até a morte é negada. No final, é com discursos piegas e pouco agudos como estes que o nosso espaço, com todos os seus corpos, seres e problemas – rutilante, colorido, criativo, trágico – morre, junto com Antonin Artaud, Baudelaire, Picasso, Fernando Pessoa, Tunga, tantos outros…

O nosso mundo pode ser visto apenas por meio da arte, mas a arte só tem condições de ser apresentada por meio de reflexões estéticas e não “reflexões sobre o mundo”. Se por um lado a produção artística continua vigorosa, por outro é a sua crítica que está em declínio. A boa notícia é que ainda encontramos, em meio à ruína do “social”, “imediato” e “político”, trabalhos que, apesar de diversos e criados por personalidades tão diferentes, revelam-se como materializações transcendentais do eu, do mundo, da vida e das complexas relações entre eles. Não são “alienados” nem “elitistas”. São transcendentes, vivos. Arte contemporânea é arte viva.