O martelo na Pina e a vitória de Trump
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O martelo na Pina e a vitória de Trump

Sheila Leirner

11 de novembro de 2016 | 09h38

Anteontem, dia do resultado das eleições americanas, e como sempre faço quando venho à cidade, visitei a Pinacoteca do Estado, agora chamada (e transformada em) Pina. É um dos únicos lugares de São Paulo que me fala de perto desde o final dos anos 60, quando foi dirigido por Delmiro Gonçalves, crítico que me precedeu neste jornal.

No espaço central do prédio, magnificamente reformado no século passado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, instalava-se uma obra de cujo autor não consegui descobrir o nome. Um dos montadores que estava no segundo andar do andaime e queria passar o seu pesado martelo ao colega do térreo, jogou-o ao chão com força. O instrumento estatelou-se com um estrondo no lindo pavimento de pedra, fendendo uma de suas lajotas. Isso, enquanto todos riam do desastrado método.

Pina

Dirigi-me à primeira guardiã que encontrei e relatei o ocorrido. Ela ficou tão indignada quanto eu e, por própria conta, foi vigiar a montagem. Creio que deve até mesmo ter avisado os seus superiores. Gosto muito do pessoal que trabalha ali. Além de sua simpatia, parece ter uma excelente formação. Ao contrário daquele operário, cujo trabalho certamente é terceirizado, sempre revela respeito e estima pela instituição.

Neste momento há tantas e tão ricas exposições simultâneas na Pina, que o visitante é levado a viajar pela arte brasileira como se estivesse atravessando um túnel do tempo com janelas privilegiadas. Espaços, temas e autores desfilam sob os seus olhos de maneira fluida e didática.

Aliás, esta transformação da Pinacoteca em Pina, é também uma mudança de personalidade. Hoje, ela quer ser vista como um “museu para todos”, ou seja, tornou-se um espaço tão social quanto cultural, criando ou aumentando visivelmente o papel interativo com o público por meio do seu núcleo de ação educativa e outras estratégias museológicas.

Arte não se ensina

Não que uma instituição excessivamente pedagógica seja ideal para adultos que desejam experimentar um percurso estético neutro. Em arte, as interferências “didatizantes” nem sempre são benéficas. Como já escrevi, arte não se ensina. Mas, o que é certo, arte educa. Aponta e desenvolve caminhos entre o corpo e o espírito, nos revela a nós mesmos.

Até a próxima, que agora é hoje e se todos tivessem sido instruídos pela arte, o lindo chão de pedra da Pina hoje estaria intacto e um palhaço como Trump não se encontraria no topo de um dos maiores países do mundo.

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