Movimentos, sim!
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Movimentos, sim!

Sheila Leirner

20 Maio 2017 | 09h18

(…) O Brasil é um caso notório de subdesenvolvimento partidário (…) Não iremos a lugar algum se as elites dos diversos setores não assumirem suas responsabilidades (…). Frases pescadas no artigo de Bolívar Lamounier, hoje, dia 20, no Estadão, que cita Fernando Gabeira na, também esclarecedora, matéria de ontem, dia 19. O que não está dito, como deveria, no texto do segundo e não foi acatado pelo primeiro (que afirma “não saber o que isso significa”), é que “movimentos” não são destinados a ficar ou “representar”.

 

 

Movimentos constituem apenas um primeiro passo. A sua vocação, em segundo tempo, é a sua transformação em partidos, como o “La République En Marche” (LREM), na França. Partido este que não poderia ter nascido senão de um movimento fulgurante, por meio da interação, da “troca” genuína entre seu líder e o povo.

Se, como lembra Gabeira, na década de 1980, no Brasil ou na França, as pessoas se indagavam “se os partidos não eram uma forma de organização historicamente condenada”, isso não teve, como ele deduz erroneamente, nenhuma influência (nem remota) “na forma como o atual presidente, Emmanuel Macron, se elegeu”. Ele se elegeu pois conseguiu impor a imagem de um candidato fora do sistema, portanto sem partido político, mas que assumiu plenamente a necessidade de criar o LREM, logo em seguida, com a função de fazer eleger representantes nas legislativas.

Claro que “a democracia representativa é o único modelo sério e consistente de democracia e os partidos lhe são essenciais”, como diz Lamounier. No entanto, em países que são “casos notórios de subdesenvolvimento partidário” nos quais agora “o processo de decomposição é irreversível”, podemos (e devemos) pensar em movimentos, sim.

Os valores da República francesa mudaram. Antes tínhamos “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Como “Fraternidade” não possui mais o mesmo sentido, hoje – com a atual visão de mundo – a nova divisa será “Liberdade, Igualdade e Benevolência”. Sim, adotar “benevolência” é a grande mudança que deverá orientar as gerações futuras, e não só da França. Movimentos em novos moldes, com ações participativas, à escuta real da população, podem surtir efeitos inimagináveis e terminar em partidos fortes, com formas bem definidas, em qualquer país. A prova aí está!

Até a próxima que agora é hoje, dia de lembrar que, enquanto assunto, arte e cultura só são prioridades em país vitorioso!

Como funcionou o movimento ‘En Marche!’

Foi um trabalho de proximidade. Perseverante, tranquilo, bem estudado, respeitoso do “outro”, mesmo que suas ideias fossem divergentes. Houve até mesmo programas de formação para os voluntários, que os ensinava como encarar, sem agressividade ou violência, as objeções e as propostas discordantes. Alta civilidade! Em seus meetings, Macron pediu que não se vaiasse os adversários. Sabe-se que ética e probidade começam com boa educação. Não foi o que testemunhamos até agora em nosso país.

Tudo começou com o “porta a porta”, um procedimento inédito. Foram recolhidas por voluntários, vestidos com as camisetas do movimento, 100 mil conversas sobre o cotidiano dos franceses. Enquanto isso, 400 experts em todos campos formaram grupos de trabalho. Fez-se um diagnóstico das problemáticas, iniciativas e energias, a partir da chamada “Grande Marcha” e das reflexões dos grupos de experts. Formaram-se 3 mil e 400 comitês locais, ateliês para a discussão dos temas e planos de transformação, a partir das primeiras constatações e propostas concretas.

Simultaneamente desenvolveu-se o trabalho por Internet: houve a fundação (online) do movimento e a formação de todas as redes e plataformas disponíveis, com pormenorização didática do programa, sistema simplificado de adesão, mensagens individualizadas, vídeos instantâneos, programação de eventos, “caminhadas” de conscientização do público em ruas e espaços públicos. As visitas de “porta a porta” continuaram até as eleições. Toda a informação e o resultado dos trabalhos foi convergindo à equipe próxima de Emmanuel Macron que, finalmente, pôde propor um plano definitivo de transformação do país, ou seja, um plano que partiu de baixo para cima, da forma mais democrática possível.