Morre Yves Bonnefoy, autor de uma obra prolixa como ele mesmo
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Morre Yves Bonnefoy, autor de uma obra prolixa como ele mesmo

Sheila Leirner

02 de julho de 2016 | 11h08

 

Yves Bonnefoy

Yves Bonnefoy. ERIC GARAULT/PASCO

Yves Bonnefoy morreu ontem, aos 93 anos. Poeta, grande viajante, leitor insaciável, tradutor, crítico de arte, professor no collège de France, inúmeras vezes indicado ao prêmio Nobel de literatura, este imenso intelectual criou – o que é muito raro – o sistema de sua própria própria produção.

“O trabalho do poeta é o de mostrar uma árvore, antes que o nosso intelecto nos diga que é uma árvore.”

Nem sempre apreciado como poeta – cujos poemas, para alguns, são às vezes falsamente simples e de difícil compreensão – dele é preciso sobretudo reter seus extraordinários trabalhos sobre Rimbaud, Baudelaire, Nerval e Mallarmé, assim como a análise do escritor suíço Jean Starobinski, e os estudos sobre a pintura e o desenho. Foi também um incansável tradutor de Petrarca, Shakespeare, Yeats, John Donne, Keats e Leopardi, tarefa que desenvolvia paralelamente à interpretação crítica destes autores e a ensaios sobre a arte de traduzir, que considerava próxima da criação poética, pois é também “um ato de transformação da linguagem”. “O trabalho do poeta é o de mostrar uma árvore, antes que o nosso intelecto nos diga que é uma árvore”, escrevia.

Apesar da diversidade de suas atividades, um mesmo objetivo as guiava: o que ele chamava de “verdade da palavra” ou a preocupação de “apreender o que a vida possui de imediato.” Ao contrário da maior parte dos ecritores, Bonnefoy nunca sofreu da “síndrome da página em branco”. A sua posteridade está garantida: faz parte dos que escreveram tanto e sobre tantos assuntos que, estatisticamente, é impossível não encontrar algo de seu, em alguma parte.

Bonnefoy manteve igualmente uma curiosidade sempre sequiosa em relação a todas as formas artísticas. Escreveu sobre Piero Della Francesca, a pintura do renascimento, as pinturas murais da França gótica, a arte barroca, Picasso, Balthus, Giacometti, Mondrian, Alechinsky. Ainda jovem, quando morava com seus pais em Tours, descobriu Breton, Péret, Eluard, Tzara dos tempos dadaístas, Giacometti, as colagens de Max Ernst, Tanguy, os primeiros Miró.

Já em Paris, apesar do encantamento com as descobertas surrealistas, e de sua amizade com André Breton, ele rompeu com o surrealismo em 1947. Isso, pouco tempo antes da exposição surrealista internacional organizada por Breton e Marcel Duchamp. Não gostava da sua ideologia (que “opõe a quimera ao real” e que “privilegia a opacidade da luz”), nem do caráter gregário e “ocultista” do movimento.

A carreira literária de Yves Bonnefoy não teve interrupções. Desde 1931, quando iniciou a sua carreira literária, foi um homem fascinado pelo tempo e por todas as formas de arte. Embora introvertido e reservado, o seu círculo de amizades incluiu as maiores personalidades do século 20. Contudo, e é isso o que nos faz admirá-lo, Yves Bonnefoy jamais sucumbiu aos prazeres mundanos da glória literária. O seu único interesse foi a relação com o real através das palavras. Deixa uma obra gigante, humana e profusa como ele mesmo.