Meu adeus à Marceline Loridan-Ivens
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Meu adeus à Marceline Loridan-Ivens

Sheila Leirner

20 Setembro 2018 | 06h28

Marceline Loridan-Ivens, cineasta, produtora e escritora, faleceu anteontem, dia 18, em Paris. Nascida em 1928, ela passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos, ao campo de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Amiga íntima e inseparável da estadista francesa Simone Veil (que hoje repousa no Panteão), Marceline foi casada com o célebre documentarista Joris Ivens (1898-1989). 

Marceline Loridan-Ivens, em seu apartamento em Paris, no dia 12 de Janeiro, 2018. AGLAÉ BORY (Le Monde)

Quando eu era jovem e reclamava que alguém estava zangado comigo sem razão, a sábia decana da família dizia: “Se você não fez nada, esta pessoa só pode estar mal pelo que ELA fez. Você não tem nada a ver com isso…”

Não entendia muito bem esse raciocínio, mas sempre o acatei. Mesmo porque ele confortava as minhas dúvidas.

No final do livro E Você Não Voltou* da cineasta francesa Marceline Loridan-Ivens, encontrei um novo e verdadeiro sentido para esta explicação, que agora pertence ao inventário de minhas “psicologias pessoais”. No seu relato póstumo ao pai, morto em Auschwitz, a autora – que sobreviveu a três campos de concentração – dá a chave do mal-estar que, a meu ver, reafirmará o antissemitismo para sempre: “Eles não nos perdoarão jamais o mal que nos fizeram.”

A diferença em relação à minha juventude é que, agora, mesmo eu sabendo que “não tenho nada a ver com isso”, a sábia decana Marceline Loridan-Ivens não consegue confortar os meus porquês.

Toda uma vida a denunciar a injustiça e a violência

Esta pequena crônica está contida em meu último livro, lançado há alguns meses. A republico aqui como uma homenagem à cineasta, mas também produtora e escritora, que faleceu anteontem, dia 18, em Paris, aos 90 anos. Marceline Loridan passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos. Amiga íntima e inseparável de Simone Veil (hoje no Panteão), Marceline realizou em conjunto com seu marido, o grande documentarista Joris Ivens (1898-1989), filmes sobre a guerra do Vietnã e a China maoísta. Fez também um tocante longa-metragem, La Petite Prairie aux bouleaux, em 2003.

No livro citado*, Et tu n’es pas revenu (E Você Não Voltou, com Judith Perrignon, Grasset, 2015 – ainda sem tradução para o português), ela contava a sua juventude quando foi enviada no mesmo trem que Simone Veil, em 1944, ao campo nazista de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Seu último volume, L’Amour après (O Amor depois, igualmente escrito com Judith Perrignon, Grasset, 2018), relata o que veio a seguir: a liberdade recobrada, a descoberta do amor, a lenta reconstrução de uma sobrevivente. Merece igualmente uma tradução no Brasil.

Até a próxima, que agora é hoje e mais uma grande mulher se vai, deixando o seu exemplo e a sua luta. Como dizia Romain Rolland (1866-1944), “mesmo sem esperança, só a luta já é uma esperança.”