Lula, a morte e a política: devemos nos indignar?
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Lula, a morte e a política: devemos nos indignar?

Sheila Leirner

06 de fevereiro de 2017 | 08h28

Como para milhares de indivíduos que não se detêm para refletir, ao ver as imagens do velório e ouvir o discurso de Lula, a minha primeira reação foi pensar que era deplorável aquele “faturamento político” da morte da ex-primeira-dama. Porém, antes de me indignar e julgar, resolvi me dar o tempo de pensar. Além do mais, esta é uma questão que toca a arte.
Philippe Pasqua

Philippe Pasqua (1965), Vanité.

É uma questão que toca a arte porque trata de reflexão, julgamento e sobretudo empatia que, do ponto de vista psicológico, é o processo de se colocar no lugar do outro assim como de um objeto artístico para compreender emocionalmente o seu comportamento e significado. E do ângulo social ou estético é uma forma de percepção do objeto ou da pessoa que está fora de nós, do ponto de vista dela mesma – e não de nós.

Como para milhares de indivíduos que não se detêm para refletir, ao ver as imagens do velório e ouvir o discurso de Lula, a minha primeira reação foi pensar que era deplorável aquele “faturamento político” da morte da ex-primeira-dama.

Porém, antes de me indignar e julgar – o que teria sido mais fácil pois nunca defendi este personagem, suas ações e ideias; ao contrário, gostaria, isto sim, que respondesse em Justiça pelo que fez, não fez ou deixou de fazer – resolvi me dar o tempo de pensar. Afinal, quem somos nós para “moralizar”, se para Madame de Staël e Tolstói “tudo compreender é tudo perdoar”?

Além disso, tenho horror à chamada “moralina”, neologismo inventado por Nietzsche que designava uma certa moral cristã com a qual a burguesia “bem-pensante” do século 19 se vestia para camuflar melhor a sua rapinagem, autorizar o seu poder e continuar a explorar os pobres em nome de Deus.

Hoje, infelizmente ainda grassam os espíritos bem-pensantes e a “moralina” continua. Somos obrigados a beber pelo menos três copos por dia de ideias convencionais e padronizadas, tanto na imprensa quanto nas redes sociais.

Devemos nos indignar?

Para refletir, não levou mais do que alguns segundos. Nem precisei de muito esforço. Porém, mais do que entender o suposto “faturamento político da morte” por Lula, percebi o quanto falta de compreensão da alma e psicologia humanas mesmo em especialistas respeitáveis. Compreendi que alguns “pundits”, experts e líderes formadores de opinião – célebres gurus das redes sociais – precisariam, tanto quanto os políticos, de uma boa injeção de responsabilidade! Estes analistas de eventos na mídia popular transmitem falsas expectativas e julgamentos breves, não raro errôneos e levianos, a milhares de “carneirinhos automáticos” que os compartilham e “curtem”.

Contudo, será que é tão difícil captar, por empatia, que para alguém que come, bebe, fuma, dorme e ama política, não existe compartimentação entre os setores da sua vida? É tão complicado perceber que um homem primário que se casa, tem filhos, se veste, anda, ri, chora, fica são, cai doente, vive e vai morrer politicamente e só politicamente – que este indivíduo intelectualmente limitado e a política são uma coisa só? Se nem a participação de um Papa pode ser outra que a religiosa, como esperar uma configuração e consciência apenas humanas, num velório onde as pessoas envolvidas não têm outra dimensão senão a política?

Não tenho a menor intenção de defender Lula. Gostaria apenas de apontar os pseudo-moralizadores, destiladores constantes de “moralina” que se indignam com tanta rapidez e facilidade, sempre julgando sumariamente o que ou quem detestam, a partir de si mesmos, sem jamais se colocar no lugar do outro. Objetividade e justiça só podem nascer da aptidão de não projetar as próprias suposições, impressões e valores, mesmo quando o objeto é odiado.

Até a próxima que agora é hoje e tremo só de pensar em como que esses “gurus” julgariam obras de arte, caso a tarefa lhes fosse apresentada. Se é tão difícil para eles tomar alguns segundos do seu tempo para pequenos exercícios de empatia e reflexão, imagino como veriam a arte!