Israel: a paz terá que esperar
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Israel: a paz terá que esperar

Sheila Leirner

06 de maio de 2019 | 12h38

Como se sabe, palestinos e israelenses foram mortos neste weekend, numa escalada da violência entre o Hamas, grupo terrorista que controla a faixa de Gaza desde 2007 e o exército israelense. Gaza disparou 690 foguetes (um recorde) contra Israel entre sábado e domingo, dia 5, e Israel interceptou 240, atingindo, como resposta, 220 alvos em Gaza. Felizmente, o confronto não prossegue, mas a trégua intermediada pelo Egito é frágil e o clima de tensão é crescente. Com a eleição de Binyamin Netanyahu, a democracia recuou e – na falta de negociação, diante das contradições de uma gestão puramente securitária de Gaza (que consiste apenas em evitar a guerra) numa aventura sem vitória possível – a paz terá que esperar.

Antes que os detratores de Israel recomecem a cair em cima deste país injustamente, é preciso compreender algumas coisas que podem ser analisadas de maneira bem separada da política do controvertido primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, do seu passivo de ilegalidades e da sua aliança com a extrema-direita e os ultra ortodoxos. Deve-se saber principalmente que a volta à tensão, no momento em que o cessar-fogo foi acordado no começo do ano, tem a ver apenas com a “agenda interna” do Hamas para conseguir ficar no poder de Gaza. Especialistas pensam que este ataque não está relacionado com o que se publica (Eurovisão, formação do novo governo israelense, ramadã, etc.).

É preciso lembrar que o Hamas é um grupo agitador e violento que impõe o uso sistemático do terror e tomou o poder por golpe na faixa da Gaza, diante da Autoridade palestina. É considerado terrorista por quase todas as nações do mundo e, do lado palestino – ao contrário da Autoridade palestina – não é reconhecido como interlocutor legal.

A política do pior

Toda vez que a Autoridade palestina exerce pressões diplomáticas para por fim à dura divisão que toca a população (e que serve, é claro, a Israel) o Hamas começa a usar a “política do pior” com Israel, a fim de impedir toda possibilidade de um acordo. É o que se vê desde sempre.

Do lado israelense, Binyamin Netanyahu, reeleito, tem a força para pressionar Mahmoud Abbas (a Autoridade palestina) mas, em síntese, diz o seguinte: “Vocês querem negociar, porém quem representam? Se negociarmos com vocês e lhes cedermos territórios, quem nos garante que os terroristas do Hamas não se aproveitarão disto para nos atacar?”

Na verdade, com ou sem mediadores, trata-se de um jogo a três, há pelo menos 20 anos: Hamas, governo israelense e Autoridade palestina. Um jogo, onde esta última é tanto mais fraca quanto mais pesado e complicado é o confronto que se dá no mundo muçulmano. De acordo com o professor e doutor em geopolítica Frédéric Encel, “entre xiitas e sunitas, principalmente, e em particular na Arábia Saudita e os seus aliados de um lado, e o Irã e os seus aliados de outro lado; tudo isso colocou o conflito israelo-palestino em segundo plano.”

Vimos perfeitamente, naquela demonstração veleidosa de Trump e dos seus bajuladores tropicais – com o pretenso reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel – o quanto a Autoridade palestina foi fraca. Mesmo com este “reconhecimento da soberania de Israel no Golã”, ela não obteve quase nenhum apoio dos países árabes.

O Hamas quer ficar no jogo

A única razão, portanto, do ataque do Hamas, é querer “ficar no jogo”. Pois, fora do financiamento do Qatar, que permite à pobre população palestina apenas comer e se vestir, estes terroristas são cada vez mais contestados em toda parte, até mesmo (e sobretudo) em seu próprio território. Fora do Irã e de alguns países árabes, o apoio que recebem é irrisório.

Dentro da faixa de Gaza, os palestinos se manifestam contra a canalha do Hamas que eles acusam, com toda razão, de incompetência, ditadura, fanatismo religioso e corrupção no mais alto nível. É por esta razão que este grupo de terroristas, contestado tanto no plano social quanto político, precisa se fantasiar de “combatente contra Israel”, usando a violência.

Bem antes do revide dos foguetes israelenses, o Hamas já estava apavorado com a ideia de cair por causa de manifestações gigantes da sociedade civil de Gaza. É improvável que haja um golpe do jihad islâmico, grupo extremamente minoritário ali. Também, como não há partidos políticos e sindicatos em Gaza, o Hamas dificilmente seria vencido em votação. Por outro lado, e esta é a marca da “primavera árabe”, centenas de milhares de pessoas nas ruas podem acabar com eles.

O fato é que, para Israel, o Hamas não constitui um inimigo ideal. Inimigo melhor do que esse grupo terrorista é o regime sírio. O extremismo e a crueldade dele, durante décadas, permitiu aos governos israelenses sucessivos, justificar a anexação das colinas de Golã com o argumento de que não poderiam dar um pedaço de território a monstros como aqueles. E são inimigos ideais, porque não representam perigo como o Hamas. Os sírios não atacam Israel, sabem que isso lhes custaria sempre mais caro.

Bibi, o nacionalista

Assim, de maneira retórica, a situação permite ao primeiro ministro nacionalista apontar o Hamas e também a fraqueza da Autoridade palestina. Mas, ao mesmo tempo, o governo israelense sabe que, com o tempo, acaba por enfraquecer-se com esta oratória repetitiva. E que se, em algum dia, não conseguir resolver o problema pela negociação ou pela força, acabará perdendo.

É possível que chegue o momento em que o conflito ultrapasse este estado latente e que o problema se torne de fato pesado e necessite de uma estratégia, sobretudo para um governo que assume o seu nacionalismo. O ultimato de Bibi Netanyahu neste weekend de 4 de maio, foi claro. Ele que não gosta de guerrear, não lutou contra o Líbano ou a Síria e, na verdade, exceto em 2014, jamais fez ofensiva maior contra o Hamas, sabe perfeitamente da capacidade militar do seu país. Se quisesse, em uma semana apenas, o Hamas estaria riscado do mapa de Gaza para a eternidade. Só que isto custaria a vida de muitos inocentes e, politicamente para ele e o país, poderia ser catastrófico.

Os detratores de Israel acusam sempre a desproporção entre as suas vítimas e as do lado palestino. Sim, mas quando centenas de foguetes caem sobre Israel e matam 5 inocentes, a questão da desproporção não funciona mais. O Hamas – que espera chegar ao final de tudo para vencer a Autoridade palestina, e está sempre disposto a atacar Israel – é inteiramente responsável por tudo que decorre após seus atos. Não apenas pelas 5 mortes no campo adversário, mas por todas as mortes, também em seu próprio campo. Além do mais, em Gaza a população é civil. É evidente que quando Israel se defende, são eles que pagam.

Até a próxima que agora é hoje e se este grupo agitador, beligerante e violento amasse tanto o seu povo e as suas crianças quanto odeia Israel, talvez a paz no oriente médio, apesar da apatia de Netanyahu, estivesse garantida!

Israelenses protegem-se enquanto as sirenes avisam a chegada de foguetes de Gaza, durante as hostilidades na cidade de Ashkelon ontem, dia 5. Foto: Amir Cohen/ REUTERS

Palestinos diante das ruínas de um prédio destruído pela força aérea israelense em Gaza, ontem, dia 5. Foto: Khalil Hamra / AP

 

Ambulância recolhe uma mulher israelense ferida no ataque à cidade de Ashdod, ontem dia 5. Foto: Ahmad Gharabli / AFP

 

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