Gravidade é preciso
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Gravidade é preciso

Sheila Leirner

17 de março de 2019 | 15h38

Este é um testemunho tardio, seis anos atrasado. Por causa de Roma (2018), filme muito premiado que tantos adoram e outros detestam, todos geralmente sem meio-termo, revi Gravidade também laureado e realizado pelo mesmo Alfonso Cuarón. Juntei as notas que escrevi na época, os comentários que publiquei nas redes e o repensei. Às vezes, o pequeno pulo a uma obra antiga faz olhar com outros olhos um trabalho recente.

Se os leitores leem cada vez pior (percebe-se isto claramente nos comentários de jornal e nas redes) não há razão para que os espectadores não assistam a filmes e olhem obras também cada vez pior, de maneira mais apressada, julgando errado. É por isso, nestes tempos de reações impulsivas, pavlovianas e epidérmicas, onde a cultura e a atenção são supérfluas, que às vezes é interessante rever trabalhos como exercício de concentração, observação e paciência. Reabilitando certas obras, por vezes reabilitamos igualmente os nossos sentidos e a nossa apreensão. E podemos, inclusive, mudar de opinião.

detesto o espaço

Igual à personagem Ryan Stone (Sandra Bullock) em Gravidade, eu também “detesto o espaço”. Revendo o filme, sofri como da primeira vez porém gostei dele ainda mais. E compreendi alguns defeitos e qualidades de Roma de outra maneira.

Gravidade tem momentos de mestre, pura obra de arte dentro de um roteiro sensacional escrito por Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón et Rodrigo García, digno filho de Gabriel García Márquez. Teatro, cinema e poesia, juntos no espaço. E que diálogos! Sete óscares certamente merecidos.

Mas Gravidade não é só divertimento. Clooney está incrível, porém Bullock, ótima atriz com um corpo monumental, é tão perfeita que parece personagem de síntese! A sua cena quando conversa com o radioamador russo, ouvindo os ruídos da vida na terra, realiza que vai morrer e imita cachorro é absolutamente antológica. É metafísica. Pena que Cuarón não fez Gravity 2.

Um pouco de paciência

Gravidade não é ficção-científica. É hiper-realismo científico. Trata-se de um filme inteligente, nada pueril, mas que não tem nada a ver com Kubrick ou Asimov. Sabemos que existem filmes e existe cinema… Para mim é cinema assim como Roma, que é um pequeno monumento. Em Gravidade, quem espera por divertimento e ação, não gosta. Como em Roma, é preciso um pouco de paciência, olhar e ouvido atento, sem se deixar distrair – apenas deslumbrar – pelos “truques”.

E é lindo de se ver, as falas tem humor, os diálogos beiram o teatro do absurdo, o tempo todo à procura de referências no que foi vivido, uma vez que o espaço é a sua perda total. Além de ser também uma comovente história de amor.

Gravidade, como todos bons filmes, pode ser entendido em vários níveis. Tem por vezes até mesmo qualidades metafísicas e continua provando que a arte é o único fabricante de truques capazes de nos aproximar do “real”. Aliás, como saberíamos o que é o “real” se não fosse a arte? Ou a “artificialidade da arte”, que em Roma está tão explícita?

Roma é um filme magistral

Roma é um filme magistral, com várias referências de grande cinéfilo. Tanto quanto em Gravidade, além do poder imersivo sensorial de sua mixagem sonora formidável (que na televisão fica um pouco diminuído), a beleza das imagens (algumas cenas são puro Fellini e Béla Tarr) trazem a mesma melancolia quando os momentos são de memória. O êxito mais virtuoso de Cuarón é o de jamais construir afrescos pretensiosos, guardando a humildade ao se inspirar em lembranças e ao criar personagens autênticos e intensos.

No espaço não há sons. Em Gravidade, as vozes, músicas “terrenas”, a comunicação com Houston, as intercomunicações, tudo isso acontece no interior de um capacete ou uma nave. Uma explosão que não se escuta. Neste filme, o que escutamos nas cenas externas não são ruídos. Os ruídos foram recriados inteiramente com a música composta especialmente para aquelas cenas. Fica difícil de distinguir, pois o musical e o visual estão totalmente entrelaçados. Isso é ou não extraordinário?

Além do mais, apesar de ter tido orientação da NASA, este filme não possui uma visão unilateral da exploração e investigação espacial, não puxa a sardinha para os americanos. A visão que dá é globalizante, quase uma homenagem aos outros programas espaciais, como o russo e o chinês. Tanto é que a heroína é salva graças aos calhambeques estrangeiros que encontra pelo caminho. Delícia de calhambeques, com aquela estética “vintage” das primeiras eras espaciais. O Soyuz parece o submarino Nautilus do capitão Nemo (o Príncipe Dakkar) de Júlio Verne, no século 19.

O submarino Nautilus do capitão Nemo, nos romances de Júlio Verne. Ilustração original.

Cheguei à conclusão, e acho que não é exagero, que certas descobertas digitais feitas neste filme são um marco na história do cinema e da arte, da mesma maneira que a perspectiva foi um marco em 1430, com Uchello. Existe uma sequência onde não há cortes. Aliás, a quantidade de sequências longas sem corte é prodigiosa e única. Nesta cena, acompanhamos de forma totalmente linear, o olhar da astronauta “de dentro” do capacete espacial onde estão estampados os dados luminosos, GPS e outros, em vermelho (assim como no Google Glass). Depois saímos do capacete e continuamos a ver a cena inteira de todos os ângulos possíveis e imagináveis, inclusive do outro personagem. É um fenômeno visual de “ubiquidade”, jamais visto na história do cinema ou da arte. É como se fosse o “olhar de Deus” recriado pela tecnologia. Só isso já vale o filme inteiro e duvido que não tenha sido intencional.

Paolo Uchello, desenho em perspectiva de um cálice (c. 1430)

Apesar da homenagem, há uma condenação velada aos russos que possivelmente tenha a ver com a “guerra fria” nas questões espinhosas relativas à Síria. O filme é de 2013, mas o problema persiste. Fica evidente também a forte crítica ao descaso russo em relação ao lixo espacial. De fato, estes explodem todo o material imprestável e o jogam na estratosfera. Para os americanos, talvez com razão, os astronautas russos são uma espécie de “mujiques do espaço”. Penso que no futuro, na era da “ecologia espacial”, este filme será considerado talvez como uma comédia dos tempos em que não se sabia o que fazer com o lixo espacial…

Gravidade, corajosamente, é quase que levado apenas por uma mulher. Mesmo a lágrima dela voa no ar… lindo! A única vez que se vê Clooney sem capacete leva 2 minutos e o segundo personagem masculino, quando pensamos que finalmente vamos conhecer, morre. O contato com a terra no final me tocou demais. Podem falar o que quiserem. Os filmes de Cuarón tocam e tocam fundo. Como Roma, ficam, não se esquece. Que cena maravilhosa, com rãs, insetos e ruídos da natureza! E que alívio, finalmente! Acho que é raro sentir tanto na pele, o quanto é acolhedor, delicioso e comovente esse planeta que nos gerou.

Até a próxima, que agora é hoje e não tenho nenhum preconceito contra Hollywood, Netflix e o resto! Dali podem sair obras-primas.