Golden imbecility
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Golden imbecility

Sheila Leirner

11 de março de 2019 | 15h48

Há quem defenda os rapazes do “golden shower”, uma vez que eles mesmos se defenderam dizendo que a sua “performance” foi “ato político-artístico planejado com o intuito de comunicar uma mensagem de artistas contra o conservadorismo”. Mas as imagens, os objetivos, a ocasião e o lugar não deixam nenhuma dúvida. Trata-se de uma apresentação pública de parafilia incontestavelmente inartística, uma impostura que, em qualquer país do mundo, seria proibida ou punida pela lei.  

Réplica da “Fonte” de 1017, ready-made de urinol assinado por Marcel Duchamp. Centro Pompidou. (Sucessão Marcel Duchamp / ADAGP / foto RMN-GP / Christian Bahier / Philippe Mige.)

Nas imagens indevidamente divulgadas pelo presidente Bolsonaro, entretanto, não se vê nada do que os dois autodenominados “artistas” supostamente pretendem. O manifesto que eles escreveram, e só depois que o vídeo viralizou, descreve um projeto esdrúxulo de produtora pornográfica, propõe uma discussão sobre “práticas sexuais não hegemônicas e hegemônicas” (?!) e coloca “populações indígenas, LGBTTQIAN+, mulheres cisgênero e transgênero, população negra, quilombola” (sic) etc., tudo no mesmo saco. Ou seja, é uma mixórdia total.

Pode-se chamar qualquer ato de “ato político”, até mesmo um assassinato. Assim como se pode dizer que uma panela é objeto de arte. Porém, não é a simples nominação que torna um ato político ou transforma um objeto em arte. Mesmo Marcel Duchamp instaurou a escolha como a sucessora da elaboração mental, para os seus “ready-made”.

Os rapazes se divertiram

Li um comentário no Facebook dizendo que “os rapazes se divertiram praticando o que lhes apetece e diz respeito apenas a eles”. Certamente. Só o lugar estava errado.  Quando não se trata de arte, todos têm o direito de fazer o que lhes apetece… entre quatro paredes. Quando se trata de arte, existem cuidados. Antes de jogar qualquer coisa de forma egoísta e irresponsável na cara das pessoas, é preciso lembrar que se está diante de um público de diferentes faixas etárias e sociais. Quando se exibe performance ou arte erótica, por exemplo, em qualquer lugar o mundo – Paris, Nova York, Tóquio ou Berlim – tudo que é inadequado a crianças ou que pode ferir o sentimento ou a sensibilidade de certos adultos, se for em espaço aberto é proibido e se for exibido em instituições é isolado com um aviso e uma indicação etária. Neste caso, há também alternativas expográficas (agrupando as obras mais problemáticas em espaços exclusivos) para liberar o acesso a todas as idades. O público fica livre para escolher visitar os “espaços reservados” ou não. Isto se chama “classificação indicativa”. Jamais se viu uma “apresentação explícita” em países civilizados ou, pelo menos, alguma que não fosse impedida ou enquadrada pela justiça.

Esta exibição inartística de rua nada tem a ver com a verdadeira performance (La Bête) apresentada em 2017 por Wagner Shwartz no MAM em São Paulo. E menos ainda com o que foi exibido no mesmo ano, na mostra “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural da capital gaúcha. A performance de Shwartz, artista coreógrafo (que já realizou muitas outras na mesma linha) interpretava a célebre obra interativa “Bicho” de Lygia Clark – na qual o público era convidado a interagir mexendo em seus braços, pernas e no restante do corpo para alterar a sua posição como se ele mesmo fosse a escultura articulada da artista, falecida em 1988.

Se pessoas nuas não são “tabu” em tribos indígenas, são menos ainda em espetáculos, performances (ou pinturas) de museu. No entanto, a confusão entre arte e obscenidade se dá por motivos que todos conhecemos. E os objetivos de quem transforma em ato político o que é simples pornografia, também.  Não é porque somos um Estado Democrático de Direito, que supostamente a performance está “amparada constitucionalmente” e que, segundo os advogados dos “artistas”, “a Carta da República garante, em seu artigo 5º, inciso IX, a liberdade de manifestação cultural e artística”, que juristas, críticos de arte e analistas experientes são obrigados a considerar indecência como arte ou manifesto político. Ou que atos torpes supostamente artísticos sejam reprimidos ou reprovados porque se esteja do lado da censura.

Até a próxima que agora é hoje e a verdade é que o célebre “Golden Shower” que ficará na história política e dos costumes de nosso país – e que, infelizmente, não deu origem a um efetivo “Golden Shower Gate -” não foi mais do que puro comportamento parafílico de exibicionismo e voyeurismo. O que, em lugares públicos de qualquer país do mundo é – muito justamente – proibido e punido pela lei!