François Roustang, o novo Sócrates que nos deixou
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

François Roustang, o novo Sócrates que nos deixou

Sheila Leirner

29 Novembro 2016 | 00h49

Basta sentar convenientemente para encontrar o nosso lugar e posição na existência.

François_Roustang_jpg

François Roustang em 2009. Foto: John Foley/Opale/Leemage

Perdemos um grande. Alguém que nos ensinou e guiou o quanto pôde, com sua enorme sabedoria, o pouco que sabemos sobre a vida.

Antigo jesuíta e psicanalista, François Roustang (1923-2016), também filósofo, recentemente dedicava-se  à hipnoterapia e nos deixou há poucos dias, na noite do 22 ao 23 de novembro, com dados fundamentais sobre a cura. Por meio de sua transmissão, à qual provávelmente se dará ainda mais valor no futuro, conhecemos os efeitos nefastos da “transferência” em psicanálise, as palavras desnecessárias em terapia, e também as particularidades do tempo de análise que, segundo ele, “não deve se eternizar” como fazem os analistas desonestos que “prendem” os seus pacientes durante anos a fio – enchendo os seus bolsos – como se os seus analisandos realmente tivessem algum poder de decisão sobre o “fim da terapia”.

Além de sua honestidade profissional e intelectual – que conheci de perto – François Roustang foi um homem totalmente livre, que se colocou contra Lacan e as igrejinhas freudianas numa época em que ninguém teve essa coragem. Analista anti-psicanálise fora da norma, ele provou, segundo a historiadora (freudiana) Elisabeth Roudinesco, no jornal Le Monde de ontem (28 de novembro), um “talento excepcional e um humor delicado e feroz”. “Tal é o testamento deste Sócrates rebelde”, diz ela, “grande médico das doenças da alma”. Isto, não sem lançar uma pequena farpa que não vou reter aqui, como sempre em defesa de Freud. É  bom lembrar que Roudinesco é o melhor cão de guarda moderno do fundador da psicanálise…

Roustang jamais aceitou pacientes narcisistas que não estivessem dispostos a mudar e tentassem ‘enrolar’ o terapeuta.

É inesquecível a página 23 do romance O Reino (Le Royaume, POL, 2014), onde o escritor Emmanuel Carrère conta a sua única sessão com este psicanalista. Diante dele, Carrère evoca o impasse no qual se encontra, suas dores de barriga, seus pensamentos suicidas. Em seguida, pergunta a Roustang se este aceitaria tomá-lo como paciente para uma terapia. O terapeuta responde que não. Era esperado. Roustang jamais aceitou um paciente que não estivesse disposto a mudar, que pudesse se fechar e “armar” em uma posição narcisista, tentando “enrolar” o terapeuta.

“Percebo… tudo que o interessa é provar mais uma vez como o senhor tem talento para derrotar os seus psicanalistas. O senhor deveria tentar outra coisa”, continuou Roustang. “Sim, mas o quê?”, respondeu Carrère. “O senhor falou de suicídio. Isso não faz muito sucesso em nossos dias, mas às vezes é uma solução.” Depois de deixar um longo silêncio se instalar, o terapeuta conclui: “Se não, o senhor pode viver.”

Fim da cura. “Pouco a pouco, sem que jamais o tenha revisto, constata Emmanuel Carrère, as coisas começaram a melhorar.”

Até a próxima que agora é hoje, e certas pessoas não morrem. Faz quase 30 anos que releio, repenso François Roustang e relembro a sua pessoa, na tentativa de fazer com que ele ainda me guie!

Entrevista com François Roustang, filósofo e terapeuta francês (1923-2016). Tradução e legendas em português: S. L.