Formidável resposta à ‘bacanal narcisista no Louvre’
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Formidável resposta à ‘bacanal narcisista no Louvre’

Sheila Leirner

24 Junho 2018 | 11h38

Sem qualquer dúvida, ‘This Is America’ clipe do americano Childish Gambino colocado no YouTube há pouco mais de um mês, é o melhor e mais extraordinário contraponto ao brega arrogante de Beyoncé e Jay-Z no Museu do Louvre. Clipe inteligente que, com a sua crueza, ao contrário de ‘Apeshit’, denuncia de fato a América atual: o lobby das armas, o racismo, o sistema penal, a violência policial, o hiperconsumo e a própria luxuosa, vulgar e pretensiosa sociedade do espetáculo na era das redes sociais, da qual ‘The Carters’ são os expoentes máximos. ‘This is America’, além da ótima música e atuação, ele sim, faz pensar.

“This Is America”, formidável videoclipe de Donald Glover (Childish Gambino).

Aos 34 anos, Donald Glover (Childish Gambino) confirma com este clipe os seus múltiplos e prodigiosos talentos. Além de rapper e compositor, ele também é dançarino, ator, cantor, cineasta, roteirista, produtor, humorista e DJ. Glover cresceu em família pobre no subúrbio de Atlanta, em Stone Mountain, onde se refugiou na leitura de peças de teatro e criação de esquetes. Diplomado pela Universidade de Nova York, a sua obra preferida é Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944. No Exit, aliás, é o título de uma de suas canções.

Cada trabalho dele surpreende, seja com o álbum onde mistura funk dos anos 1970 com soul e gospel ou com a série de televisão Atlanta, onde ele revela a realidade americana contemporânea. Não é de admirar que, neste clipe de 4 minutos este artista culto e reflexivo desenhe o retrato de uma América despreocupada que prefere dançar e correr atrás de dinheiro, em vez de enxergar a opressão e a violência em sua volta.

Nos Carters a violência é provocação, em Childish Gambino ela é real.

Childish Gambino é o oposto do talentoso The Carters, casal que, no fundo, acaba como traidor da causa negra já que é vendido ao capitalismo branco. O suposto “orgulho negro” deles é a soberba de dois egos superdimensionados, embriagados pelo poder, enquanto que o orgulho negro em Childish Gambino, muito melhor expresso neste clipe, é modesto, a verdadeira “honra negra” e consciência do próprio valor e cultura nativa. Nos Carters a violência é provocação, é mímica e pose. Vulgaridade pura. Em Childish Gambino ela é real, um grito de desespero. Com classe e dignidade.

O clipe This Is America – que se tornou viral (5,8 milhões de visualizações até agora) – pode ser analisado, inclusive, semiologicamente. Temos vontade de revê-lo várias vezes até conseguir desvendar o significado de cada coreografia, gesto e imagem. Há momentos, por exemplo, que alguns críticos dizem se inspirar simultaneamente em uma dança africana, a Gwara Gwara, no “stanky leg” texano e nos gestos de Jim Crow. Este personagem foi popularizado nos anos 1830 pelo ator (branco) Thomas D. Rice que, fantasiado de negro, zombava dos gestos das populações afro-americanas. No fim do século 19, quando os Estados Unidos aprovaram as leis de segregação racial, elas foram chamadas de “leis de Jim Crow”.

Mas há outras mensagens . No clipe, depois que o cantor negro é assassinado com uma bala na cabeça, ele é arrastado como um animal enquanto alguém recupera delicadamente a arma colocando-a dentro de um tecido vermelho. Este é um sinal claro contra o armamento de civis. A cena do fuzilamento do coro de igreja composto por cantores negros americanos, refere-se explicitamente ao massacre racista na igreja episcopal da comunidade negra em Charleston, em 2015, porque o assassino queria provocar “uma guerra entre raças”.

Nas coreografias, o contraste entre as cenas festivas e o caos é perturbador. Além da denúncia contra o racismo e as armas, é uma crítica severa à sociedade do entretenimento e das redes sociais, o mundo de imbecis do qual falava Umberto Eco, que – entre outras coisas – não sabe interpretar o que lê, agindo por impulso e mimetismo muitas vezes com enorme violência. Uma cena curta mostra jovens filmando as rixas com seus smartphones, o que lembra a série inglesa Black Mirror de Charlie Brooker.

O clipe termina com Childish Gambino perseguido, um final que também pode ser interpretado de diversas maneiras, inclusive em paralelo com o filme Get Out (Corra! de Jordan Peele ) que trata igualmente de racismo.

Até a próxima, que agora é hoje, hora de deixar a agressividade e os preconceitos de lado, aprender a ver obras de maneira inteligente e ler textos exatamente como foram escritos!

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

“Jim Crow” por Jean-Michel Basquiat