Eurocopa e a arte do futebol
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Eurocopa e a arte do futebol

Sheila Leirner

11 Julho 2016 | 11h48

“Os jogadores de futebol”, Henri Rousseau, 1908

Ao acompanhar praticamente todos os jogos da Eurocopa 2016 e ter sofrido ontem com a derrota francesa, não pude me furtar à delícia de imaginar os jogadores como foram retratados pela primeira vez na história da arte. Sim, porque nunca tinham sido pintados antes de 1908, quando Henri Rousseau resolveu fazê-lo. Artista celebrado por Apollinaire – admirado e colecionado por Picasso – Rousseau, afinal, foi o primeiro a representar a modernidade… E se a bela equipe dos “bleus” adotasse, em vez desses cortes estranhos de cabelo, os bigodes encerados, penteados duros de gumex, camisetas e shorts listrados? Antoine Griezmann – ganhador da “Chuteira de Ouro” de melhor goleador da Eurocopa – ficaria perfeito com o uniforme!

Cinco anos depois, em 1913, Umberto Boccioni o futurista – do qual o MAC de São Paulo possui, entre outros trabalhos, uma bela escultura – pintou o “Dinamismo de um jogador de futebol”. Os futuristas italianos, também defensores da modernidade, odiavam o classicismo, “vomitavam”  diante da Mona Lisa e procuravam novos temas. O esporte trazia inspiração, pois ele permitia mostrar – não apenas a figura do jogador – mas a potência do seu movimento, que é o que interessava aos futuristas.

Dinamismo de um jogador de futebol, Umberto Boccioni, 1913-14

“Dinamismo de um jogador de futebol”, Umberto Boccioni, 1913-14

A mesma preocupação em apresentar o dinamismo do jogo, podemos também encontrar na pintura de André Lhote, com os “Jogadores de Futebol”, de 1918. Ele foi o teórico do cubismo, o que irritava um pouco Braque e Picasso, criadores do movimento, que não queriam vê-lo contido num “manual”.  Teoria de cubismo para artistas cubistas era um pouco como se um comentador esportivo dissesse aos jogadores como eles deveriam jogar… Lhote (assim como Juan Gris) introduziu  cor e letras como referências às publicidades que já se via nos estádios, há mais de um século!

 

“Jogadores de Futebol”, André Lhote, 1918

Foi André Lhote quem, alguns anos mais tarde, escreveu sobre o escândalo criado por Nicolas de Staël que, em 1952,  expôs a sua famosa série sobre o estádio Parc des Princes.

Staël: “traidor do abstracionismo” por causa do futebol

Staël era, até então, um herói da pintura abstrata. Mas, depois de ter assistido um jogo entre a França e a Suécia (um pouco como aquele que assistimos ontem entre França e Portugal), ele se lançou nesse conjunto sensacional de pinturas figurativas. Staël escreveu até mesmo ao seu amigo, o poeta René Char, contando a alegria de ter visto a “massa de músculos em movimento”. Alegria lhe valeu o título de “traidor do abstracionismo” dado pelo grupo que, depois, ele acabou chamando de “gangue da abstração”.

“Jogadores de Futebol”, Nicolas de Staël, 1952

Sem falar nas centenas de artistas brasileiros, atualmente há cada vez mais criadores no mundo que se inspiram no futebol. Alguns de maneira bastante crítica, aliás. Maurizio Cattelan, Massimo Furlan, Gianni Motti, Miguel Calderon (na Bienal de São Paulo), Fabrice Hyber – que imaginou em 1998 uma bola cúbica que obrigava a criar regras de jogo especiais, como fazer gols nos “corners” – e muitos outros artistas contemporâneos. Philippe Parreno e seu cúmplice escocês Douglas Gordon, por exemplo, filmaram Zinédine Zidane durante um jogo, com 17 câmeras de lentes diferentes. Assisti a este filme no Centro Pompidou: 90 minutos durante os quais se vê apenas um homem, um jogador, isolado das duas equipes, inteiramente só. Filme impressionante!

E, por falar em Zinédine Zidane, o infeliz e célebre gesto que ele fez sobre Materazzi também foi imortalizado num bronze de mais de 5 metros de altura que Adel Abdessemed apresentou em 2012 na exposição chamada “Eu sou inocente”, no Centro Pompidou em Paris.

“Coup de tête”, 2011-2012, Adel Abdessemed, bronze

Até a próxima, que agora é hoje e a pintura de Rousseau – assim como o futebol do século 20 – eram bem mais elegantes!