Crítica de um filme que não vi e não gostei
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Crítica de um filme que não vi e não gostei

Sheila Leirner

28 de agosto de 2018 | 11h18

Jean-Jacques Beineix, realizador, produtor e argumentista francês, está certo: “o cinema anda povoado de cretinos irrecuperáveis”. Eu diria ainda que a sétima arte às vezes é exercida por gente que não deveria nem mesmo habitar o planeta.


Não vi A Casa que Jack Construiu, filme sinistro e repugnante de Lars von Trier que, em maio deste ano, causou a saída espontânea do público em Cannes, e a Mostra Internacional de SP exibirá em outubro. Assisti praticamente a todas as outras obras dele, o que já me autoriza a evitar esta última e concluir sem culpa e arrependimento intelectuais – com toda a subjetividade que o meu ofício me permite – que Trier é o realizador que mais detesto neste mundo!

Se o cinema é “uma mistura perfeita de verdade e espetáculo”, segundo François Truffaut, esta ignobilidade certa, “uma das atrações” do festival paulistano, só poderá constituir a nova mistura imperfeita de lama com a estupidez que aflige cada vez mais o cineasta, uma imundície tão dispensável quanto todas as outras várias perpetrações diabólicas dele até agora.

Pelo pouco que vi e li, A Casa que Jack Construiu é certamente mais uma diatribe propagandística contra a humanidade e o humanismo, com todas essas sujeiras insuportáveis do tipo que von Trier faz Charlotte Gainsbourg dizer, como “a hipocrisia é o que melhor resume o gênero humano”, ou “todos nascemos para matar”, etc., etc., etc.

Como sempre, o roteiro deve ser bastante abjeto. E porque não, mesmo se o espectador ficar perplexo diante de mensagens tão delicadas que lhe darão vontade de se jogar do alto do Edifício Itália ou de sair trucidando todo mundo?

A grande contradição é que esse cinema se mostra sempre uníssono. As sequências são pesadas, escolares, e as provocações repetidas lembram incitações de um adolescente problemático. Isso, quando não aparecem pequenas “lições de história” tiradas da Wikipédia para “intelectualizar” a narrativa.

O “humor” geralmente ajuda o conjunto a ficar mais pesado. Com a câmera no ombro, Lars von Trier sempre consegue um feito: transforma em feiura pura até mesmo atores lindos (quando estes já não são feios como Gainsbourg) e também tudo que é ou poderia ser bonito.

Até a palavra violência torna-se fraca para definir a intimidação moral desses filmes, onde racismo, sexismo, misoginia, masoquismo e ódio humano saltam aos olhos. Sempre entremeados de minicursos de esoterismo e “harmonia musical para nulos”. Nos perguntamos se esse homem de 62 anos é de fato um malvado moderno ou apenas um idiota, tipo intelectual bárbaro e nauseabundo da Idade Média.

A Casa que Jack Construiu marcou o retorno do dinamarquês à Croisette, tentando ser escândalo, mas foi em vão. Nem o boato da saída do montador do filme, de sua mesa de trabalho, para ir vomitar, ou das ambulâncias na porta do Festival para recolher os desmaiados, estimulou os perversos. Já estamos todos bastante acostumados com Tarantino, Haneke, Lynch, Cronenberg, Marco Ferreri…

Fora que a história e seus cinco tipos arrojados de assassinato todo mundo já conhece: Jack (Matt Dillon) é um assassino em série, autor de mais de 60 crimes, e tudo se passa ao longo de 12 anos a partir dos anos 1970, no estado de Washington. No elenco estrelam Uma Thurman, que praticamente não tem tempo de abrir a boca e já leva uma tijolada, Riley Keough, Bruno Ganz, Siobhan Fallon Hogan e outros.

O que dá uma certa satisfação aos (e às) antifeministas e aos artistas macabros é que Matt Dillon grande ator, ou melhor, Jack, mata sobretudo mulheres que ele acha particularmente imbecis e chatas. Além do feminicídio, ele satisfaz também o seu desejo estético de elaborar uma “grande obra fúnebre” no museu, quero dizer, na catedral lívida de uma câmara frigorífica colocando os corpos em poses sugestivas, os quais fotografa. Como Facebook, Twitter, Instagram ou Pinterest ainda não foram inventados, ele envia as fotos aos jornais assinando “Sr. Sofisticação”. Damien Hirst não poderia ter imaginado performance melhor.

Parece que os diálogos em voz off com o personagem interpretado por Bruno Gantz (Verge, ou melhor, Virgílio, o poeta da “Eneida”) são muito piegas, o que não me admira. Assim como não me admira que, como li em alguma parte, ele faça liçãozinha em forma de considerações nada originais sobre Glenn Gould, a arquitetura gótica, William Blake, as diferentes maturações do vinho, e também os grandes crimes totalitários. Tudo isso, é claro, pontificando, revisitando Dante e sem deixar saber porque o Jack chegou naquele ponto, apesar de mostrar que, quando pequeno, o exterminador tinha cortado com tesoura a pata de um lindo pintinho.

O niilismo de Lars von Trier sem dúvida macera em litros de vodca misturados com Rivotril. A sua obsessão é sempre suja e infame, o riso amarelo, a provocação sexual e política gratuitas; e o “espertinho” continua coexistindo em seu cérebro com o mesmo doente mental que um dia evocou comiseração por Hitler.

Não faz mais efeito. No presente, Lars von Trier é como aquele velho tio inconveniente que não gostamos de receber em casa. Até a próxima que agora é hoje e duvido que o cineasta teria sido, ele mesmo, um “grande assassino em série “, como afirmou. Os verdadeiros matadores não brincam em serviço!

 

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