Mulheres: como querer igualdade sem aceitar diferenças?
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Mulheres: como querer igualdade sem aceitar diferenças?

Sheila Leirner

08 Março 2017 | 20h58

Quando revelei a historieta e conclusão deste post a um amigo, ele ficou na dúvida.
– “Mas… o seu blog não é sobre arte?”
“Sim”, respondi, “porém, a arte, nós não saberíamos o que ela é se não fosse a vida e… vice-versa!”
Manifestação em Paris

“Não me libere. Faço isso sozinha.” Manifestação em Paris hoje, dia 8, quarta-feira. Remy Gabalda/AFP

Há 25 anos encontrei, pela primeira vez, a vizinha do terceiro andar do prédio onde moro até hoje. Psicanalista e psiquiatra, casada com um sociólogo do CNRS (“Centro Nacional da Pesquisa Científica”), pertencíamos à mesma geração.

Para a minha surpresa, após alguns minutos de conversa, ela confessou que “era uma mulher traída”. Tinha descoberto que “o seu marido mantinha uma relação extraconjugal há vários meses” com uma colega de trabalho. Não entendi a razão da revelação, uma vez que os franceses são extremamente discretos, jamais trocam intimidades, sobretudo quando acabam de conhecer uma pessoa.

Depois, por intuição, recusei o seu convite para um café e continuei, por um quarto de século, sem saber o motivo daquela confissão, sendo que cada vez que os via sentia o desprazer dessa “cumplicidade” não desejada.

O insight aconteceu há pouco. Eu assistia a um filme que não tinha nada a ver mas que, de certa maneira, deve ter mexido em algum neurônio. Posso estar errada, porém finalmente a ficha caiu: ela ficou com medo que o seu marido e a nova vizinha (eu) mesmo casada, tivessem um caso amoroso! Contando-me rapidamente que ele possuía uma amante, ela esperava neutralizar qualquer esperança que porventura eu – que não era de jogar fora – pudesse nutrir…

Muitas traem os maridos, poucas atraiçoam as ‘melhores amigas’

Nada de novo sobre a terra, afinal. Quem não conhece aquela tática, unicamente feminina, que consiste em ficar “amiga íntima do perigo iminente”? Muitas mulheres podem trair maridos, poucas são capazes de atraiçoar as “melhores amigas”. É por isso que,  na maior parte dos casos, a manobra funciona.

Aqui, a estratégia foi diferente. Tão perversa e inimaginável por mim, que só a decifrei agora, na maturidade. Junto com outro estalo. O fato de que este insidioso recurso de uma mulher, jamais teria sido usado por um homem.

Sim, porque o marido sociólogo infiel dela certamente nunca teria se aproximado do meu para dizer que era um “homem traído”. Que tinha descoberto que a sua mulher psicanalista “mantinha uma relação extraconjugal há vários meses”, de modo que o seu vizinho – que também não era de jogar fora –  não pudesse mais se interessar por ela. Enfim, nenhum dos dois usaria este tipo de estratagema… tipicamente feminino!

Sou pela igualdade de oportunidades, não pela igualdade entre os sexos

Penso que tudo deve estar aberto às mulheres: carreiras, posições, TUDO! E também a liberdade de escolher a vida e as paixões que quiserem. Mas sou pela paridade de oportunidades e salários – sempre contra o machismo, a violência e o assédio, é claro -, não pela uniformidade de resultados e muito menos pela igualdade entre os sexos que, a meu ver, é impossível.

A diferença enriquece. A igualdade depaupera. Tanto quanto na relação entre nativos e imigrantes em um país, a alteridade é fonte de riqueza. Quando uma mulher “quer ser como um homem”, sem que os problemas de gênero se imponham, ela se desnatura. Quando provoca artificialismos de “solidariedade feminina” ela se empobrece. E quando escolhe apenas outras mulheres para se relacionar, como se fossem espelhos, deixa inexoravelmente de se ver.

Até a próxima que agora é hoje, dia internacional das mulheres que querem – e com razão – os mesmos direitos, porém só alcançarão esta meta quando começarem a aceitar as suas (colossais) diferenças!

 

Manifestação em Paris

Uma manifestante em Marseille, no dia 8 de março de 2017. ANNE-CHRISTINE POUJOULAT / AFP