Como entender o mal-estar à nossa volta?
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Como entender o mal-estar à nossa volta?

Sheila Leirner

21 Dezembro 2018 | 15h08

Não se trata de fazer amálgamas. Depois de terem se manifestado no último sábado, pela 5ª vez, alguns milhares de franceses pretendem protestar novamente amanhã, dia 22. Agora é Versalhes que os bárbaros oportunistas, que se juntam aos manifestantes, gostariam de quebrar, incendiar, pilhar. As tragédias de Estrasburgo e Campinas, os coletes amarelos, os quebradores da ultradireita e ultraesquerda que semeiam o caos, o cemitério judaico na Alsácia profanado com suásticas, o terrorismo, os psicóticos, as surpreendentes revelações sobre João de Deus, o ódio, preconceito e ressentimento nas redes sociais, tudo têm em comum, de fato, vítimas, carrascos e bodes expiatórios. Enxergar isso é talvez o primeiro passo para entender o que se passa.

“Teseu lutando contra o Centauro”, Antonio Canova, 1805, Kunsthistorisches Museum, Viena.

É Natal, símbolo de paz. Aparentemente, nada justifica o terrorismo, o aumento da violência, cemitérios profanados, psicóticos à solta, teorias da conspiração, redes sociais transbordando de ódio, abuso de poder sobre os corpos de centenas de mulheres por um só curandeiro – o inverso do médico Denis Mukwege, Nobel da Paz 2018 por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado. Como explicar o mal?

A França, enquanto “estado de bem-estar social” (welfare state), é um dos países mais protetores do mundo, um dos mais lindos, culturalmente prodigiosos e profícuos em todos os campos. O seu governo não é uma ditadura a combater. Constitui, ao contrário – mesmo se instável – uma república democrática exemplar. Para um brasileiro, os movimentos sociais atuais e a cólera são indecifráveis. A conclusão é a de sempre: “os franceses não merecem a França.”

Sim, porque hoje o custo de vida nos dois países é praticamente idêntico, mas os salários mínimos totalmente díspares: 954 reais no Brasil, 5.700 reais na França (com o aumento de 450 reais já concedido pelo presidente Macron). Têm-se a impressão de que o individualismo consumista dos franceses da classe média faz com que não aceitem as reformas necessárias pretendidas pelo governo, perdendo a cabeça.

“David com a cabeça de Golias”, Caravaggio, 1606-1607 (Galeria Borghese, Roma)

O movimento dos coletes-amarelos não é político ou ideológico. As reivindicações dos pacíficos são difusas, muitos deles não são tão pacíficos assim. Pedem aumento do salário mínimo, são contra os impostos, as taxas, o aumento do combustível e a perda de poder aquisitivo. Já os quebradores da ultradireita e ultraesquerda, por sua vez, não têm nenhuma exigência além de semear o caos, pontualmente teleguiados por este ou aquele partido extremista que, naturalmente, também não quer outra coisa.

Depois de terem se manifestado no último sábado, dia 15, pela 5a vez, alguns milhares ainda pretendem protestar amanhã, dia 22. Desta vez é Versalhes que os bárbaros oportunistas que se juntam aos coletes-amarelos gostariam de quebrar, incendiar, pilhar. Versalhes fechará suas portas, porém os criminosos continuarão a agredir a polícia e a causar prejuízos que já alcançaram milhões de euros ao país e aos próprios franceses.

Já na segunda-feira os coletes amarelos levarão as suas crianças a excelentes escolas gratuitas. Consultarão médicos, oftalmologistas, irão a hospitais e receberão óculos, remédios, exames de sangue e outros caríssimos, tudo isso quase gratuitamente. Receberão passes de vacinação gratuita, todos os exames para despistar doenças sem pagar nada, usarão uma enorme e confortável rede de transportes por um preço razoável, terão à disposição uma biblioteca e uma midiateca em cada bairro e em todas as cidades para lhes emprestar livros, discos e filmes por um preço simbólico.

Não sabemos ainda se os brasileiros merecem ou não o país que têm

O brasileiro é conhecido no mundo inteiro por sua doçura e espírito de apaziguamento. Não falta muito para que essa imagem positiva se dissipe. Basta ler o que se escreve nas redes sociais e nos comentários dos jornais on-line. De alguns anos para cá, qualquer assunto, mesmo o mais anódino, é motivo de rancor e agressividade. País polarizado, ainda indefinido politicamente, as consequências do ódio, preconceito e ressentimento, nos são, apesar da precariedade do país em comparação com a França, também inescrutáveis. Não sabemos ainda se os brasileiros merecem ou não o país que têm. Só sabemos que eles não merecem ter sido roubados como o foram até agora. Nem perder confiança e segurança jurídica em seus tribunais superiores, como acontece a todo instante.

Resta a teoria do filósofo e antropólogo René Girard (1923-2015), cuja síntese figura no meu último livro, no capítulo “O Inferno”, que republico abaixo. Sinto que precisamos dela neste momento, mais do que a discussão de Freud sobre o mal-estar na cultura, a pulsão de morte e a civilização. Freud tratava do indivíduo e da burguesia europeia no século 19. Época em que o mundo ainda não lidava com as “multidões democráticas”, a “democracia de massa”, as disfunções e doenças do igualitarismo como a derrocada do “segredo” (que protege) e a subida da “transparência” e da “liberação da palavra” que leva à violência crescente, da qual um bom exemplo é o #MeToo. Girard é da nossa época, nos fala de perto. A questão girardiana do “desejo mimético” exige um pouquinho de esforço para acompanhar, mas explica bastante, creio eu, o mal-estar geral que presenciamos à nossa volta, e em toda parte.

Desejo mimético

Em linhas gerais, na teoria sobre o fenômeno do “triângulo mimético” (que lançou as bases de uma nova antropologia e também pode explicar a violência apocalíptica e o radicalismo de certas civilizações islamitas), o “triângulo” é formado pelos indivíduos A e B, e pelo suposto “bem”, ou seja a “coisa desejada”. Trata-se de um jogo simbólico, onde o indivíduo B:

◆ Possui um bem (não necessariamente material)
◆ Parece dispor de um bem
◆ Poderia dispor de um bem

Que o indivíduo A pensa:

◆ Que ele mesmo não possui
◆ Que o seu gozo está ameaçado pelo simples fato de que B dispõe, pareça dispor ou possa dispor dele

O triângulo entre A, B e o “bem” é motivado pela necessidade de TER algo, já que não dá para SER algo. Ou seja, sem conseguir SER o “modelo” B, o indivíduo A pensa que o que caracteriza o indivíduo B, e justifica a diferença entre eles, é a “possessão” de um bem. A questão irá residir, portanto, na imitação do desejo desse bem. Quanto mais A deseja o bem, mais B o imita, entrando no mecanismo do “desejo mimético”. E mais A e B vão ficando parecidos em relação ao mesmo desejo.

Esquematicamente, quanto mais a tensão em direção ao objeto (material ou não) é forte, mais A e B perdem as suas diferenças.

Para Girard, essa indiferenciação entre as pessoas traz rivalidade por causa da tensão com relação ao mesmo objeto. E a rivalidade mimética cria conflito e violência.

Aí entra a outra teoria de Girard: a do “Bode Expiatório” (1982), fenômeno coletivo que, segundo ele, é a resposta inconsciente de uma comunidade à violência que seus próprios membros geraram por causa da rivalidade, dentro do “triângulo mimético” entre A, B e o objeto.

Esse fenômeno ancestral de “todos contra um” tem a função de extirpar a violência interna (endêmica) à sociedade. Em resumo, o bode expiatório é o mecanismo coletivo que permite a uma coletividade sobreviver à violência gerada pelo desejo mimético de seus membros, mesmo quando esses desejos não são individuais, mas coletivos.

Aplicado ao Brasil, à França – e a qualquer país instável  – o desejo e a rivalidade são excitados pela propaganda política, publicidade, mídia e redes sociais, que não são mais do que caixas de ressonância da “violência mimética”.

O jogo simbólico do “triângulo” permite a aproximação dos indivíduos em uma classe única. Esta, fica povoada de “iguais-rivais” que se invejam. Todos pensando que a saída é reencontrar uma “unanimidade” e, sobretudo, um “bode expiatório”. É o inferno sobre a Terra.

Até a próxima que agora é hoje e… obrigada René Girard!

O antropólogo francês René Girard em junho de 2008. LINDA CICERO/STANFORD NEWS SERVICE

 

“A adoração do Carneiro de Deus”, Jan Van Eyck, 1432