Como a arte, o futebol é de todos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como a arte, o futebol é de todos

Sheila Leirner

17 Junho 2018 | 12h48

Futebol é como arte. Em campo, é obra individual e coletiva, expressão objetiva e subjetiva voltada à concretização de um ideal de desteridade e harmonia, com uma finalidade comum. Torcemos ou não por países, mas o futebol é de todos. E, como tudo que é universal, contribui para a paz no mundo.

Laurent Perbos, “A bola mais longa do mundo”, 2003, cortesia do artista.

‘Finalmente, o que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem, devo ao futebol…’
(Albert Camus em carta a J.-P. Sartre, 1957)

A bola e a sua magia enquanto objeto transicional  é peça de compartilhamento que circula entre os povos, não apenas entre nações, fazendo deste esporte uma espécie de religião ecumênica que é fator de concórdia e comunhão. Da mesma forma como a arte, hoje mundializada, que gira entre os museus no mundo inteiro unindo as pessoas.

Em campo, o futebol transcende confederações e federações nacionais e internacionais, cartolas, países, governos, política e até mesmo o próprio futebol. Quem gosta e não vai curtir as performances porque está zangado com alguma coisa, ou é tolo ou é masoquista. Ninguém, nem este esporte, têm culpa de nada e precisa sofrer por tabela.

E se certos jogadores adotassem bigodes encerados, gumex e shorts listrados?

Ao assistir aos primeiros jogos da Copa 2018, enquanto aguardo a estréia da seleção brasileira contra a Suíça esta noite (aqui, às 20h) não consigo me furtar à delícia de imaginar os jogadores como foram retratados pela primeira vez na história da arte. Sim, porque nunca tinham sido pintados antes de 1908, quando Henri Rousseau resolveu fazê-lo.

Artista celebrado por Apollinaire – admirado e colecionado por Picasso – Rousseau, afinal, foi o primeiro a representar a modernidade. Verdade que acabaram as extravagâncias vestimentárias e capilares, os “Bleus” estão com um look de “genro ideal”. Na Rússia, parece que a hora é de sobriedade. Mas, e se certos jogadores como Antoine Griezmann, Olivier Giroud, Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Gerard Piqué, adotassem bigodes encerados?  Mesmo que (à exceção de Neymar) estejam um pouco mais elegantes, e se usassem, em vez dos cortes estranhos de cabelo e tatuagens, os penteados duros de gumex, camisetas e shorts listrados?

“Os jogadores de futebol”, Henri Rousseau, 1908

Cinco anos depois, em 1913, Umberto Boccioni o futurista – do qual o MAC (Museu de Arte Contemporânea) de São Paulo possui, entre outros trabalhos, uma bela escultura – pintou o “Dinamismo de um jogador de futebol”. Os futuristas italianos, também defensores da modernidade, odiavam o classicismo, “vomitavam”  diante da Mona Lisa e procuravam novos temas. O esporte trazia inspiração, pois ele permitia mostrar – não apenas a figura do jogador – mas a potência do seu movimento, que é o que interessava aos futuristas.

A mesma preocupação em apresentar o dinamismo do jogo, podemos encontrar igualmente na pintura de André Lhote, com os “Jogadores de Futebol”, de 1918. Ele foi o teórico do cubismo, o que irritava um pouco Braque e Picasso, criadores do movimento, que não queriam vê-lo contido num “manual”. Teoria de cubismo para artistas cubistas era um pouco como se um comentador esportivo dissesse aos jogadores como eles deveriam jogar… Lhote (assim como Juan Gris) introduziu  cor e letras como referências às publicidades que já se via nos estádios, há mais de um século!

Porém, foi André Lhote quem, alguns anos mais tarde, escreveu sobre o escândalo criado por Nicolas de Staël que, em 1952,  expôs a sua famosa série sobre o estádio Parc des Princes.

Staël: “traidor do abstracionismo” por causa do futebol

“Jogadores de Futebol”, Nicolas de Staël, 1952

Staël era, até então, um herói da pintura abstrata. Mas, depois de ter assistido um primeiro jogo da Copa entre a França e a Suécia (um pouco como aquele sofrido e não muito jubiloso que assistimos ontem, dia 16, entre França e a Austrália), se lançou num conjunto sensacional de pinturas figurativas. Staël escreveu até mesmo ao seu amigo, o poeta René Char, contando a emoção de ter visto a “massa de músculos em movimento”. Emoção que lhe valeu o título de “traidor do abstracionismo” dado pelo grupo que, depois, ele acabou chamando de “gangue da abstração”.

Sem contar as centenas de artistas brasileiros, atualmente há cada vez mais criadores no mundo que se inspiram no futebol. Alguns de maneira bastante crítica, aliás. Maurizio Cattelan, Massimo Furlan, Gianni Motti, Miguel Calderon (na Bienal de São Paulo), Fabrice Hyber – que imaginou em 1998 uma bola cúbica que obrigava a criar regras de jogo especiais, como fazer gols nos “corners” – e muitos outros artistas contemporâneos. Philippe Parreno e seu cúmplice escocês Douglas Gordon, por exemplo, filmaram Zinédine Zidane durante um jogo, com 17 câmeras de lentes diferentes. Assisti a este filme há 12 anos no Palais de Tokyo, em Paris: 90 minutos durante os quais se vê apenas um homem, um jogador, isolado das duas equipes, inteiramente só. Filme impressionante!

E, por falar em Zinédine Zidane, o infeliz e célebre gesto que ele fez sobre Materazzi também foi imortalizado num bronze de mais de 5 metros de altura que Adel Abdessemed apresentou em 2012 na exposição chamada “Eu sou inocente”, no Centro Pompidou em Paris.

Até a próxima, que agora é hoje, países são países, governos são governos, política é política, e futebol… bem, futebol é futebol! Quem ama, não perde.

Animação de Gareth Bale. “Tottenham vs Inter Milan” (Richard Swarbrick), 2011. @RikkiLeaks

 

Dinamismo de um jogador de futebol, Umberto Boccioni, 1913-14

“Dinamismo de um jogador de futebol”, Umberto Boccioni, 1913-14

“Jogadores de Futebol”, André Lhote, 1918

 

“Coup de tête”, 2011-2012, Adel Abdessemed, bronze

 

Entrevista com o ex-goleiro Albert Camus, que acabara de ganhar o Prêmio Nobel. O escritor comenta o jogo entre a França e Mônaco, no dia 23 de Outubro de 1957, no Parc des Princes.