Cassandro mon amour
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Cassandro mon amour

Sheila Leirner

05 Dezembro 2018 | 21h52

Estou apaixonada por uma pessoa da qual nenhum homem pode ter ciúme. Ela é doce, carismática, vibrante, humana, corajosa e tem uma vida inacreditável. Uma vida que, apesar de tudo que me desgosta nela, para mim é um exemplo de transposição, superação de todos os limites sociais, fraquezas pessoais e preconceitos.

Cassandro, nome artístico de Saúl Armendáriz (1970), mais conhecido sob o apelido de ringue Cassandro el Exótico, é um esportista de luta livre nascido em El Paso, no Texas, que trabalhou no México e inspirou a cineasta Marie Losier, cujo documentário, apresentado no Festival de Cannes este ano, sai hoje nos cinemas em Paris.

A inspiradora do nome já dá o tom do seu destino: Cassandra foi a prostituta que com todo o seu ganho construiu e sustentou uma fundação de ajuda a mulheres batidas mexicanas. Vendo o lutador que escapou das drogas e adições pela espiritualidade, este ser que – com suas dezenas de ferimentos, cicatrizes e intervenções cirúrgicas – dança ao sol, como nos rituais astecas, vêm à memória a obra de Frida Kahlo.

Sim, porque além de fazer pensar no que há de “sacrifício” e de tradição mexicana na dualidade “vida e morte”, este artista se aproxima um pouco de Marina Abramović pela fusão entre a sua vida, biografia, suas neuroses pessoais e a sua “arte corporal” ou performática, porém de uma maneira ainda mais autêntica e profunda – sem sequer saber que é artista. E se afasta totalmente do artificialismo e das estratégias de uma Orlan, por exemplo, que – ao contrário de Cassandro – nunca foi uma “lição de vida” para ninguém.

Muros aviltantes

Não importa se é bom, passável ou ruim. Interessa que o filme, rodado na Ciudad Juarez, é profundamente marcado pelo dual, pelo sofrimento e desafio dos muros simbólicos e reais, aqueles anteparos aviltantes que todos enfrentamos e construímos mentalmente em nossa existência, também os que os governos de extrema-direita estão erigindo.

Se adorei Cassandro el Exótico, drag queen da luta livre, não é porque sou politicamente correta. Longe de mim este tipo de correção. Se sinto ternura e compaixão por Saúl, ser humano doce, vibrante, corajoso, sofrido e perseguido que está por trás do carismático Cassandro, é porque também poderia colocá-lo no meu colo. Abraçá-lo por puro instinto maternal com o qual amo meus filhos – como eles são, apesar do que são ou poderiam ser. Sentimento judaico-cristão, talvez, que me faz aceitar a diferença mesmo que ela me choque.

Até a próxima, que agora é hoje e a transgressão talvez seja a melhor forma de nos fazer entender o que é fraternidade!