Bem-vindo à 33a Bienal ‘homem branco’!
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Bem-vindo à 33a Bienal ‘homem branco’!

Sheila Leirner

28 Janeiro 2017 | 10h08

Está confirmado! Um espanhol assumirá o cargo de curador-chefe ocupado por um alemão na última edição da Bienal de São Paulo e trabalhará em parceria com o novo presidente da Fundação. Há duas semanas esta notícia ainda não era oficial e já me perguntavam nas redes sociais se eu havia notado que “depois de uma década nomeando curadores homens, foi chamado mais um homem para consagrar a ‘hegemonia branca’ masculina”. Agora que a informação não é mais oficiosa, tenho o prazer de responder. 
bienal

Marcel Gautherot (1910-1996). Foto apresentada, no ano passado, na exposição dedicada à obra deste grande fotógrafo na Maison Européenne de la Photographie, em Paris. (http://www.mep-fr.org/ ) Título: “Biennale de São Paulo, 1961”.

Eu seria a última pessoa a adular cada recente escolhido apontado a um cargo, sem saber ainda do que ele é capaz, mesmo conhecendo o que já realizou. Acho isso deplorável. Apoio é uma coisa, adulação é outra, e reconhecimento… só no final!

Porém, não notei absolutamente que foi chamado “mais um homem” para consagrar alguma presumida “hegemonia branca masculina”. O que menos me interessa é o sexo, a cor, a religião ou as convicções políticas de um profissional. Considero ridícula, imbecil e perigosa toda e qualquer posição fundada hoje em ideologias igualitaristas, inspiradas no politicamente correto, que tentam controlar os julgamentos e decisões.

Não aceito nenhuma autoridade, regulamento e juízo, fora os da minha própria consciência. Pedir quota feminina em bienais é uma medida sexista que não é outra coisa senão a afirmação da inferioridade da mulher em relação ao homem. Sim, porque fica parecendo que há algo de errado com as mulheres para que se exija a sua presença em cargos públicos apenas pelo fato de serem mulheres, não é mesmo? Assim como parece haver algo de errado com a cor dos artistas de cinema para que alguns reclamem “quota de negro” no Oscar…

Escolha deve ser por competência e capacidade, não por sexo ou cor. “Quota de negro” e “Quota feminina” são defesas perversas. Enquanto discriminações contra discriminações, são contradições de efeito contrário: impedem a evolução da posição dos negros e das mulheres. Quanto mais recebemos esse tipo de defesa, mais nos tornamos devedores e mais fracos ficamos.

Bem-vindo à curadoria da 33a Bienal de São Paulo “homem branco”!

Antes de ser homem ou mulher, você pertence à raça humana, provavelmente mostrou ser mais competente do que outros (ou, pelo menos, tem mais afinidades com “colecionadores”). Só é pena não ser brasileiro, ainda que conheça arte latino-americana. E também é pena que o seu chefe tenha feito a sua “desautorização pública” antes mesmo de anunciar o seu nome, o que me obrigou inclusive a publicar uma carta aberta a ele. No entanto, não foi só na entrevista ao Estadão que a carroça ficou na frente dos bois. À uma revista, João Carlos de Figueiredo Ferraz testemunhou com o mesmo autoritarismo: “queremos primeiro elaborar um projeto para a próxima Bienal e, a partir disso, conversar com um curador que tenha afinidade com ele.” Que se saiba é a diretoria e o presidente da Fundação que precisam ter afinidade com um projeto curatorial, não o contrário.

Até a próxima que agora é hoje e – homem, mulher, negro, branco, índio, judeu, muçulmano, budista, católico, homossexual, bissexual, heterossexual, de esquerda, direita ou centro -, em princípio, a únicas condições para organizar uma bienal é que você conheça, goste profundamente de arte e sobretudo… do público!