Bacanal narcisista no Louvre
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Bacanal narcisista no Louvre

Sheila Leirner

23 Junho 2018 | 08h18

‘Apeshit’ (fezes de macaco), o título do novo clipe de Jay-Z e Beyoncé já diz tudo: a partir do hábito de macacos raivosos arremessarem suas próprias fezes no que odeiam, este nome significa ‘a raiva que produz nos humanos um comportamento parecido com o do macaco enfurecido.’

‘Apeshit’ (fezes de macaco), o novo, pretensioso e arrogante clipe de Jay-Z e Beyoncé.

Pois é exatamente o que o novo videoclipe do casal parece fazer com a arte e a instituição que lhe serve de cenário. Os dois se contorcem diante de quadros que não olham, enquanto outros personagens posam, igualmente de costas para as obras mais importantes do museu: Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia, Coroação de Napoleão, Balsa da Medusa, Gioconda. O mau gosto atroz impera.

Não, não estamos sonhando, não é pesadelo, apenas um mau momento brega que felizmente não vai durar como a Mona Lisa, ao contrário do que disse Jay-Z. Sim, porque na entrevista que o rapper deu à Times Magazine, ele pergunta: “É melhor ser uma tendência ou ser Ralph Lauren? Melhor ser uma tendência ou ser eterno?” E afirma: “Serei como a Mona Lisa, cara! Me identifico com a verdade! Vou ser cool em 40 anos.” Que bom que a Mona Lisa, segundo o insolente rapaz, vai “durar tanto”…

O clipe, esta pequena vingança política afro-americana sobre a grande cultura, é da mesma arrogância sem par. O patriota Peruggia fez melhor quando roubou a Mona Lisa do museu em 1911. Mas se os pretensiosos Jay-Z e Beyoncé podem alugar um estádio inteiro de rúgbi, não surpreende que possuam meios de se oferecer um Louvre voraz de dinheiro e publicidade.

Depois de Niggas in Paris (2011) de Jay-Z e Kanye West – do seu álbum Watch the Throne – onde eles contam as seis noites no hotel de luxo Le Meurice no qual se esbaldam com modelos, álcool e o resto, consumindo 144 mil euros, e citando pelo menos 8 marcas de luxo (por contrato), o Louvre certamente é mais distinto.

No entanto, mesmo em instituição cultural, não são muito elegantes o escárnio, cinismo, oportunismo e atrevimento destes novos filisteus. Os selfies deles, com vestimentas perfeitamente adaptadas a uma visita de museu, de costas para a Mona Lisa, não podem ser mais cafonas. Ego-retratos capazes de fazer Leonardo se revirar em seu túmulo…

Isso, sem dizer que o significado de “Apeshit”, título desse videoclipe, é bastante ambíguo. Dentro do contexto, pode ser considerado racista. E sem dizer também que essa música (letra inclusive) de Beyoncé e Jay-Z é boa para “boi dormir”. Quem quiser curtir clipe viral, sem ficar com sono, é muito melhor assistir ao excelente “Childish Gambino – This Is America” (vídeo abaixo).

Até a próxima, que agora é hoje e eis o preço que a velha Europa deve pagar pela última e verdadeira expressão da América vulgar, ignorante e submissa, de Obama a Trump!

Videoclipe “Apeshit” – The Carters

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”