A mentira e o ‘voto de mentira’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A mentira e o ‘voto de mentira’

Sheila Leirner

18 Outubro 2018 | 11h38

“Anulando o voto ou votando em branco os eleitores favorecem quem está liderando”? Em situação normal, sim. Mas esta não é uma situação normal.

LIBERDADE, ORDEM E PROGRESSO

“Anulando o voto ou votando em branco o eleitor favorece quem está liderando”. Isso é mentira.

Resumindo o que diz o TSE:

“Os votos nulos e brancos constituem apenas um direito de manifestação de descontentamento do eleitor, não tendo qualquer outra serventia para o pleito eleitoral, do ponto de vista das eleições majoritárias (eleições para presidente, governador e senador), em que o eleito é o candidato que obtiver a MAIORIA SIMPLES (o maior número dos votos apurados) ou ABSOLUTA (mais da metade dos votos apurados, excluídos os votos em branco e os nulos).”

Voto nulo ou branco no Brasil é o que chamo de “voto fantasma”. Como é ignorado, ou seja, a sua soma não é contabilizada e nem mesmo revelada como é hábito nos países civilizados e democratas, fica-se sem saber quantos eleitores estão descontentes. Um verdadeiro absurdo.

Anulando, votando em branco e mesmo se abstendo, portanto, o votante não favorece ninguém diretamente. Apenas deixa aos outros a tarefa de escolher, o que – apesar de politicamente frustrante – é absolutamente democrático, legítimo e consentâneo.

O ‘voto de verdade’

Em situação normal, se o eleitor votar no segundo colocado estará contribuindo, claro, para diminuir a diferença entre os candidatos, mesmo que não acredite nele de modo total e ainda que, de antemão, por causa da enorme diferença percentual nas pesquisas, já saiba que dificilmente o segundo conseguiria vencer.

Mas esta não é uma situação normal. É uma raríssima combinação de circunstâncias na qual muitas pessoas sentem-se “sem escapatória” diante de “duas excrescências políticas absolutas”. Com pesquisa ou sem, elas não são capazes de raciocinar com aquele tipo de lógica, simplesmente porque não suportam a ideia de “votar de mentira”, ou seja, votar “contra”. Para elas o único voto possível é o “voto de verdade” em quem acreditam, nem que seja parcialmente.

O fato de que o Brasil tenha lutado muito para que estes indivíduos pudessem ter o direito de votar diretamente para Presidente, algo que sem dúvida eles deveriam honrar, torna-se menos grave do que desonrar os seus valores pessoais. Não existe nenhuma regra moral que os obrigue a escolher entre um tirano de extrema-direita que, para eles, é uma aberração por tudo que defende e pretende, e um pseudodemocrata continuísta, “lobo reconvertido” em pele de carneiro, representante de partido arruinador que não os convence apenas porque é universitário, foi ministro, prefeito e “parece” democrata. Não há universitários e políticos atrás das grades? Não há universitários e políticos que levaram países ao fundo do poço?

O conforto dos ‘não isentões’

Por outro lado, muitos não conseguem entender como é triste e difícil o caminho para chegar à decisão do voto nulo numa democracia. Alguns pensam que neste gesto existe “simulação”, outros “omissão”, outros ainda, “irresponsabilidade”. Acusam os (pejorativamente) chamados “isentões” de “ficarem em cima do muro” ou de “lavarem as mãos”. Seria bom se os “não isentões” soubessem que é sempre mais confortável acreditar no candidato que está melhor colocado ou pedir votos para o segundo apregoando a teoria do “menos pior”. É muito mais cômodo ter alguém em quem votar e formar a sua igrejinha, do que encontrar coragem para enfrentar o desconforto, as críticas e o isolamento que representa esta renúncia.

Até a próxima que agora é hoje e o voto branco ou nulo é tomar posição, sim! Para os que decidiram por ele, significa dar verdadeiro valor ao voto e não depositá-lo em alguém que não os represente em nenhum aspecto, em nenhuma perspectiva e em nenhuma hipótese. Mesmo “fantasma”, não contabilizado, sem qualquer serventia para o pleito eleitoral, este voto serve para mostrar que numa democracia as pessoas podem apontar claramente que não concordam com o que está sendo imposto a elas e ao povo do qual fazem parte.