A mentira é melhor do que a verdade
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A mentira é melhor do que a verdade

Sheila Leirner

09 de março de 2019 | 10h28

O mal desta época da pós-verdade, neologismo que descreve a evolução das interações entre a política e as redes sociais, é a mentira. Hoje, mais do que nunca, ela serve para atacar adversários, destruir reputações, agrupar e separar pessoas, formar comunidades, vender produtos e, entre outras coisas, ganhar eleições.

Nicolas Poussin (1594 -1665), “O Tempo tira a Verdade dos ataques da Inveja e da Discórdia”, 1641. Quadro encomendado pelo cardeal Richelieu (1585-1642) para o teto do atual Palais-Royal, em Paris. Museu do Louvre. Foto © R.M.N./P. Bernard

A mentira abunda na Coreia do Norte, Rússia, Oriente médio, entre a extrema-direita, extrema-esquerda em toda parte, e no meio dos coletes amarelos na França. Sabemos que a mentira foi a principal responsável pela vitória do Brexit, de Trump e outros presidentes. Vire e mexe a imprensa internacional aponta a mentira como razão primordial do êxito de Jair Bolsonaro. Trump continua tuitando inverdades que são desmentidas a cada vez. Já se tornou um esporte.

A mídia mundial perde espaço, tempo e mão de obra em seções dedicadas a desmentir fake news. Às vezes produzem outras fake news, como quando o jornal Le Monde desmentiu as acusações de que em determinado subúrbio francês não existem mais judeus por causa das hostilidades antissemitas. Existem, mas agora em número infinitesimal, e isto o jornal não publicou porque não convém.

A verdade é feia

A indústria da mentira prospera, o tribalismo nas redes e na mídia marrom aumentam e consequentemente a democracia está em falência. Tudo isso porque a mentira é melhor do que a verdade. “A verdade é feia”, já falava Nietzsche. Geralmente é desagradável, faz mal, traz dúvidas e não convém. A mentira representa exatamente aquilo que se quer ouvir.

O que poucos suspeitam, entretanto, é o destino negro de quem acredita em mentira, é influenciado por ela ou a pratica: a perda total e definitiva de sua liberdade. E é bem feito para ele! Até a próxima que agora é hoje, e como dizia o escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904), “não existe razão que justifique a mentira”!

Nicolas de Courteille, “A Verdade que traz a República e a Abundância” (1973) Vizille, musée de la Révolution française. Foto © RMN-Grand Palais / Michèle Bellot

 

Ilustração de Emmanuel Pierrot, para o jornal Libération de 6 de Fevereiro, 2019.