Série ‘Sharp Objects’, com Amy Adams, seduz e incomoda

Série ‘Sharp Objects’, com Amy Adams, seduz e incomoda

Estadão

01 Agosto 2018 | 12h35

Roberto Godoy

O público das séries gosta do lado escuro da força – e faz o sucesso de produções como Dark, O Bosque, O Alienista e The Rain, marcos talhados nos matadores fundamentalmente cruéis. O novo Sharp Objects (HBO1, domingo, 22h), atende a todas as expectativas acrescentando à formula ingredientes notáveis: a direção, o ritmo, a luz e a estética sem concessões trazem recursos do cinemão para o universo uterino da telinha de cada casa – ainda que algumas delas ocupem paredes inteiras.

Aos 43 anos, Amy Adams, com sua carinha de fazendeira do meio-oeste americano, vive a jornalista Camille Preaker. Arrasa. Filha de uma família da burguesia rural dos EUA, mora em Saint Louis, mas está de volta à cidade onde nasceu, Wind Gap, cumprindo missão profissional. A família mora lá, em uma mansão, e é totalmente disfuncional. Mamãe Adora (a ótima Patrícia Clarkson), vive com papai Alan (Henry Czerny) e a filha caçula Amma (Eliza Scanlen). Figuras estranhas, que circulam em meio à névoa da neuropatia, da depressão e das frustrações compensadas por abusos.

'Sharp Objects': Amy Adams vive jornalista que volta à cidade natal para uma reportagem (foto: Anne Marie Fox/ HBO)

‘Sharp Objects’: Amy Adams vive jornalista que volta à cidade natal para uma reportagem (foto: Anne Marie Fox/ HBO)

A repórter é uma personalidade alternativa. Bebe muito, dorme mal, tem sonhos horrendos, dirige uma sucata com rodas e, constrangida pelas cicatrizes da automutilação – condição que a levou a várias internações –, não consegue manter relações sexuais completas. Entretanto, é uma ótima jornalista. Esquenta a morna investigação a respeito do assassinato seriado de mulheres adolescentes. É um fator de transtorno na rotina chata do local onde, em tradução livre, até o vento falha.

O resto da história é sinistro, vale o esforço de resgate dos três primeiros episódios já exibidos. Faltando poucas semanas para a estreia da supervalorizada sexta e última temporada de House of Cards, o acompanhamento do cotidiano abrasivo de Camille Preaker é uma amostra da nova forma de fidelizar o assinante dos (caros) canais pagos. Nada do riso fácil das comédias de situação. Nada dos novelões que tratam de temas edificantes. O objetivo de 2018 é incomodar. E sem que ninguém consiga pegar aquele bendito controle e mudar a sintonia.

É evidente o endereço de Sharp…, de olho nos prêmios Emmy de quase tudo – atriz, atriz coadjuvante, direção, roteiro, melhor série e todas as partes da rota que conduz às estatuetas douradas. Para entender melhor a trama, é bom ler o livro Objetos Cortantes, de Gillian Flynn, base da produção.