Série ‘O Mago do Pop’ documenta legado do arranjador Lincoln Olivetti

Série ‘O Mago do Pop’ documenta legado do arranjador Lincoln Olivetti

Adriana Del Re

07 de junho de 2019 | 10h00

Produção estreia nesta sexta, 7, no canal Music Box Brazil; depoimentos de artistas como Gil, Lulu Santos e Maria Rita ajudam a recontar a história de um dos mais importantes nomes da música brasileira

 

Um dos mais importantes arranjadores da história da música brasileira, Lincoln Olivetti é tema da série de TV O Mago do Pop, que estreia nesta sexta, 7, às 22h, no canal por assinatura Music Box Brazil. Também instrumentista, maestro, compositor e produtor, Lincoln morreu em 2015, aos 60 anos. Com direção-geral de Omar Marzagão e Úrsula Corona, a produção traz 6 episódios, refazendo a trajetória do arranjador nascido em Nilópolis, no Rio, de garoto-prodígio na música até sua contribuição em grandes sucessos, de Roberto Carlos, Lulu Santos e Rita Lee a Sandy & Junior, passando por momentos difíceis de sua carreira.

Além de depoimentos do próprio Lincoln, O Mago do Pop reuniu um grande elenco de artistas para falar sobre o arranjador. Entre os entrevistados, estão Gilberto Gil, Alcione, Moraes Moreira, Marcos Valle, Lulu Santos, Nelson Motta, Ed Motta, Nando Reis, Maria Rita, Fagner, Mart’nalia, João Donato, Elba Ramalho, Sandra de Sá, Michael Sullivan, Lafaiette, DJ Memê, Leila Pinheiro, Pedro Luís, Leo Gandelman, Jaques Morelenbaum, Liminha, Kassin, Guto Graça Mello, Max Pierre, Mario Adnet, George Israel e tantos outros. Eles relembram histórias de bastidores – e o toque de Midas do arranjador. A série ouve também produtores, amigos, empresários da indústria fonográfica e família para recontar essa história. No total, são 67 entrevistados. E é unânime entre eles: Lincoln era gênio.

Lincoln Olivetti é tema da série ‘O Mago do Pop’. Foto: Music Box Brazil

Uma genialidade que já se manifestava na infância e na adolescência, quando ele se apresentava nos bailes. Foi um período importante para a formação dele, como o próprio Lincoln atesta. “Todas as bandas, todos os artistas brasileiros da época em que eu comecei, tudo o que eu escutei, tive de aprender e tirar com a banda em que eu tocava no baile. Tudo entrou na minha cabeça e fez uma mistura na minha cabeça. O baile é importante por isso, te obriga a tocar todo o tipo de música que está fazendo sucesso”, relembra Lincoln, no primeiro episódio da série.

O apoio da família foi fundamental nesse processo. O pai, apaixonado por música, compunha e levava amigos para tocar violão em sua casa. Aos 4, 5 anos, Lincoln ganhou o primeiro piano e, a tia logo percebeu que menino tinha de frequentar uma escola de música. Por serem de classe média alta, o pai também tinha condições de munir o filho com todo tipo de equipamento, algo que nem todos tinham acesso à época.

“Ele foi uma pessoa que viveu para música, que respirou música”, observa Úrsula Corona, diretora-geral e também apresentadora da série. “Ele dava identidade particular a vários gêneros.” Úrsula conta que o projeto foi idealizado com Lincoln em vida, e só foi possível graças à amizade e à relação de confiança que ele tinha com Omar Marzagão, também diretor-geral do projeto. A ideia era trazer à tona a história desse personagem tão importante que, por atuar nos bastidores, não é conhecido do grande público. E também tentar entender “como ele conseguia acabar uma música do Roberto Carlos e entrar numa música de Alcione”, comenta Úrsula. “Ele foi um grande arranjador e responsável por grandes carreiras. Se a gente não registra isso, o tempo apaga.”

Segundo ela, a morte de Lincoln no meio do projeto foi um baque. E, além de um documento histórico, a série acabou se tornando uma homenagem a ele. “A gente não tinha mais ele para contar a história, então trouxemos pessoas com quem ele trabalhou, trouxemos grandes nomes da indústria da música. E é uma unanimidade a falta que ele faz também para a indústria. Ele não se preocupava com o sucesso, mas com a perfeição.”

Úrsula Corona com o entrevistado Marcos Valle. Foto: Music Box Brazil

Marcos Valle trabalhou com Lincoln quando retornou ao Brasil, no início dos anos 1980, depois de passar uma temporada morando nos EUA. Primeiro, no álbum Vontade de Rever Você, de 1981. “Ali os arranjos eram meus, mas o Lincoln já trabalhou comigo em alguns teclados, em algumas ideias, e foi uma sugestão do Max Pierre, que era o diretor musical da Som Livre, e foi um trabalho muito bom”, conta o cantor e compositor, ao Estado.

Já no disco seguinte, Marcos Valle, de 1983, do qual saiu o hit Estrelar, os arranjos foram assinados pelos dois. Ideia novamente de Max Pierre. “O primeiro (disco) era um pouco mais enxuto em termos de orquestração, já nesse segundo, a ideia era trazer a coisa dos metais, a banda, e nisso o Lincoln era excelente. Fizemos todos os arranjos juntos para esse disco, e a música Estrelar acabou estourando nas paradas”, conta Valle. “Nesse disco, eu fazia os arranjos da base, que é piano, baixo, bateria e violão, e o Lincoln colocava os metais em cima. Na verdade, ele somava o som dele com o meu. Esse disco é bem pop e ele tinha essa linguagem, e a coisa se encaixava perfeitamente.”

Também entrevistado da série, DJ Memê sempre foi fã de Lincoln. “Em 1979, sai Lança Perfume, da Rita Lee, que é seminal na carreira dele”, diz Memê, em entrevista ao Estado. “Lincoln tinha entendimento de música pop e internacional que ninguém tinha.” Nos anos 1980, Memê lembra que tinha dois ídolos absolutos: Lincoln na música e Steven Spielberg no cinema. O primeiro contato do DJ com o arranjador foi quando ele começou a trabalhar com Lulu Santos. Eles viram que Assim Caminha a Humanidade precisava de Lincoln – e o piano elétrico na introdução pensado por ele fez toda a diferença. “Tem pessoas que chegam para mudar. Imagine o dia em que os Beatles apareceram no rádio? O nascimento da bossa nova mudou a música brasileira. Fico imaginando que o Lincoln foi um desses gênios.”

 

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