‘Olhos Que Condenam’ expõe o racismo no caso que ficou conhecido como Central Park Five

‘Olhos Que Condenam’ expõe o racismo no caso que ficou conhecido como Central Park Five

Adriana Del Re

31 de maio de 2019 | 16h39

Há exatos 30 anos, em abril de 1989, um caso polêmico mobilizou os EUA. Uma mulher que praticava corrida à noite foi espancada e estuprada no Central Park, em Nova York. Na mesma noite, um grupo de jovens negros circulava pelo parque. Alguns deles, porém, arrumaram confusão e a polícia foi acionada. Muitos desses adolescentes não se conheciam entre si – eles foram se juntando ao grupo, que passou pelas ruas e foi seguido por eles. No parque, os policiais saíram violentamente à caça dos meninos, que foram levados à delegacia.

Quando chegou a notícia de que uma mulher branca havia sofrido estupro, as acusações recaíram sobre cinco rapazes do Harlem: Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise. Os jovens foram obrigados a confessar um crime que não cometeram e foram condenados injustamente. Um caso típico de racismo, manipulação policial e erro da Justiça.

Os cinco foram absolvidos em 2002 e receberam indenização da cidade de Nova York em 2014. A confissão de um estuprador em série e exames de DNA contribuíram para esse desfecho. A história dos cinco garotos negros ao longo desses 25 anos, do julgamento à indenização, é retratada na série dramática Olhos Que Condenam (When They See Us), da diretora Ava DuVernay, que estreia globalmente nesta sexta, 31, na Netflix.

Cena do filme. Jovens negros foram acusados de um crime que não cometeram em 1989. Foto: Netflix

No primeiro episódio, Ava reserva os minutos iniciais para o espectador conhecer os cinco adolescentes, todos estudantes, que vivem com suas famílias e que levam uma vida normal. O destino deles, entretanto, é traçado quando, seduzidos pela ideia de diversão, se juntam a um grupo que anda pelo bairro rumo ao Central Park. Nunca imaginariam o que aconteceria na vida deles a partir dali.

Tudo começa com um erro de avaliação da promotora Linda Fairstein (Felicity Huffman), à frente do escritório de crimes sexuais, que, na ânsia de solucionar o caso rapidamente e dar respostas à opinião pública, induz toda a equipe a embarcar na sua tese de que os cinco adolescentes são os culpados. E, para isso, inicia-se um jogo sujo de manipulação, violência, chantagem e ameaças a meninos menores de idade, de famílias pobres, e humilhados e subjugados por serem negros. No restante do primeiro episódio, a diretora mostra a ida dos meninos ao inferno, numa sequência de cenas angustiantes e claustrofóbicas.

Diretora do filme Selma – Uma Luta Pela Igualdade (2014), sobre as marchas dos direitos de voto de 1965 no Alabama, que foi indicado para o Oscar, Ava DuVernay contou, em entrevista à Rolling Stone americana, que seu envolvimento com o projeto começou com um tuíte de Raymond Santana, um dos cinco acusados, em que ele dizia que tinha assistido a Selma e perguntou a ela se seu próximo filme seria sobre o Central Park Five.

“Eu estava familiarizada com a história, mas também assisti ao documentário de Sarah Burns (sobre isso). Eu disse: ‘Ninguém tem a sua história?’. E ele disse: ‘Não’. Eu estava fascinada pelo caso, eu não estava pensando realmente em fazer um filme. Mas uma vez que eu o conheci e, então, gradualmente, conheci todos os outros homens, senti que tinha que fazer isso.”

Com 4 episódios, Olhos Que Condenam tem produção executiva de Oprah Winfrey Robert De Niro. É uma nova parceria de Ophah e Ava, que já haviam trabalhado juntas no filme Uma Dobra No Tempo (2018). Também fazem parte do elenco Michael K. Williams, Vera Farmiga, John Leguizamo, Niecy Nash, Christopher Jackson e Joshua Jackson.

Com a estreia da série, entidades americanas prometem promover uma campanha de apoio ao movimento de reforma da justiça criminal.

Veja o trailer:

 

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