O poderoso stand-up ‘Nanette’

O poderoso stand-up ‘Nanette’

Com texto sofisticado, comediante Hannah Gadsby tem um discurso poderoso

Adriana Del Ré

06 Agosto 2018 | 09h17

À primeira vista – e se você não leu nada a respeito –, Nanette, que estreou recentemente na Netflix, parece um stand-up como outro qualquer. Comandado pela ótima Hannah Gadsby, o espetáculo começa dando pistas de que seguirá o velho formato em que o comediante usa a autodepreciação para conquistar o público. Um tipo de humor questionável, mas no qual Hannah se baseava para construir seus shows. Isso até Nanette.

In the Netflix stand-up special,

Hannah Gadsby. Foto: Ben King, Netflix

Assim que chegou à Netflix, o stand-up impressionou, instigou debate. E com toda razão. Hannah tem um discurso poderoso, em que fala sobre sua homossexualidade, questão de gênero, machismo. No entanto, seu texto é sofisticado. E o espetáculo, de fato, tem início com a comediante fazendo referência às suas próprias histórias – grande parte delas, envolvendo sua vida após ter se assumido lésbica – e as usando como pontos de “tensão” (expressão que ela mesma usa) para depois conduzir o público para o momento do alívio através da risada.

Conta, por exemplo, num tom bem-humorado, que, ainda bem jovem, estava num ponto de ônibus conversando com uma menina, quando o namorado da garota em questão, achando que ela era um homem, chegou e ameaçou bater nela. Só que, ao perceber que tinha cometido um engano, o rapaz disse a Hannah que não bateria em uma mulher.

Hannah não poupa também “seu povo”, como ela brinca, e é implacável com as lésbicas. Ela lembra que recebeu mensagem de uma mulher que se autointitulava porta-voz das lésbicas dizendo estar decepcionada com seu show. “‘Hannah, não acho que teve conteúdo lésbico suficiente’. Eu estava no palco o tempo todo. Não virei hétero na metade, sabe?”, concluiu a comediante australiana, para deleite da plateia. Já cobraram dela também que se assumisse como transgênero. “Eu não sou, não me identifico como transgênero, acho que nem lésbica é a identidade certa para mim. Eu me identifico como cansada’”. Há momentos também dedicados a outro tipo de público específico. “Eu não queria ser um homem branco hétero. Não agora. Não neste momento da história. Nem se me pagassem. Se bem que o salário seria muito melhor.”

Mas, ao longo do espetáculo, Hannah passa a adotar um tom mais sério, fazendo uma reflexão sobre as próprias histórias tristes pelas quais passou e que relatava pelo filtro do humor. Como a do rapaz que ameaçou bater nela no ponto de ônibus. O final desse episódio, ela não revelava quando contava como piada. Em Nanette, ela revela. Hannah critica esse tipo de humor que fez até hoje. Diz que é hora de largar a comédia. “Preciso contar minha história do jeito certo.” Subvertendo o formato stand-up, Hannah traz à tona sua história nua e crua, pontuada por frases propositalmente de impacto. Para ser visto – e revisto muitas vezes.

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