Vamos tirar o Brasil da gaveta

Estadão

05 de janeiro de 2010 | 18h51

Rolando Boldrin nunca desfilou na vida. No máximo, assistiu a algumas apresentações de antigos cordões quando eram realizados na avenida São João. Mesmo não sendo um folião de primeira, a vida e a obra deste grande brasileiro, um dos maiores representantes da autêntica cultura popular, será contada no Sambódromo do Anhembi.

Em tempos onde as escolas de samba buscam enredos comerciais, em troca de patrocínios, a Pérola Negra, do bairro boêmio da Vila Madalena, irá homenagear o ator, cantor, radialista e apresentador Rolando Boldrin, com o enredo Vamos Tirar o Brasil da Gaveta. 

Aos 73 anos de idade – mais de meio século dedicados às artes – , Boldrin confessa ter ficado muito emocionado quando soube que sua vida seria narrada na Avenida.  “Quando a gente se depara com uma homenagem desse tamanho, se vê que estava no caminho certo. Estou muito feliz. A mais pura expressão popular de nossa cultura estará na avenida”, diz emocionado, o artista.

Por telefone, Boldrin falou com Samba de Primeira e avisou que será campeão, mesmo sem nunca ter desfilado por uma escola de samba de São Paulo. “Sou pé-quente”, brinca.

Rolando Boldrin será enredo da Pérola Negra - Foto: Divulgação/Arquivo AE

Rolando Boldrin será enredo da Pérola Negra - Foto: Divulgação/Arquivo AE

Como é virar enredo de uma escola de samba e ver sua vida imortalizada na avenida?
Maravilhoso. Estou emocionando com essa homenagem. Acho que tudo isso vem coroar a verdadeira cultura brasileira. A mais pura expressão popular, a de verso e prosa. No meu programa, há quase 30 anos, enfoco a cultura brasileira. A falada, escrita e cantada. Acho que por isso que a escola resolveu me homenagear. Quando estão contando um pouco de minha história, eles estão falando da cultura de nossa terra.

Como surgiu o convite?
A diretoria da escola me ligou falando dessa possibilidade. Disseram que fizeram uma votação e chegaram ao meu nome. Disse brincando: “Não mexo com isso não”. Nunca participei de um desfile. Só assisti aos desfiles quando cheguei a São Paulo, na década de 50. Lá na Avenida São João. Mas claro que aceitei. Está sendo uma honra para mim.

O enredo da Pérola Negra é uma exceção neste Carnaval. O senhor não acha que os desfiles estão muito comerciais?
Acho que o patrocínio não pode ser obrigatório. Quando a empresa quer emprestar seu nome à cultura, ela não pode exigir que seu nome esteja atrelado na marra. Gosto quando vejo uma escola homenageando um grande artista. As escolas de samba não podem deixar morrer essas figuras, mesmo que elas tenham viajado antes do combinado. Para mim, ninguém morre. Costumo dizer que elas viajam apenas antes do combinado. A obra de um grande artista nunca irá morrer.

O senhor está participando do desenvolvimento do enredo?
Tenho ido ao barracão e aos ensaios. O que sei é que eles irão valorizar o canto, a viola, a sanfona, o teatro e a rádio… De tudo que participei um pouco.

Todo ano a conversa é a mesma de que o carnaval de São Paulo está melhorando. Para o senhor, até que nível técnico podem chegar as escolas da capital?
Pode se igualara aos do Rio de Janeiro. Não costumo separar o Brasil em fatias, como se fosse um bolo. O homem brasileiro é um homem só, como diria o grande escritor Erico Veríssimo. O carnaval de São Paulo tem a sua força. É que o Rio foi capital do País por muitos anos. Então, está na frente em algumas coisas sim.

A Pérola Negra vem para disputar o título?
Acho que já somos campeões (solta uma sonora gargalhada). Sou tremendo pé- quente. Tudo que faço é com emoção. Eles (diretoria da Pérola Negra) passaram isso para mim. Eles estão fazendo algo emocional. Desenvolvem um carnaval debaixo de viadutos. Isso é incrível. As pessoas ligadas as escolas de samba fazem tudo com muito paixão.

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