União da Ilha: a escola dos lindos sambas está de volta

Estadão

29 de janeiro de 2010 | 00h02

Texto do amigo e jornalista Décio Trujilo sobre uma das escolas mais simpáticas do carnaval carioca  

– Depois de oito anos de degredo, a União da Ilha do Governador retorna ao grupo principal do desfile carioca. Fez falta. A União é aquela escola que nos anos 70 olhou para si e perguntou com que roupa iria à orgia de luxo em que se transformava o carnaval do Rio. Como resposta, inventou o carnaval do simples. Enredos simples, desfiles simples, sambas simples – mas leves, soltos, alegres e contagiantes.

Em vez de temas históricos e complexos, de grandes fatos e feitos memoráveis, dos heróis e celebridades, que tal falar apenas do dia de domingo do carioca (1977), ou fazer a autocrítica bem humorada de sua pobreza ao proclamar o lema do bom, bonito e barato (1980)? E pior (ou melhor), contar a história da galinha d’angola” (1996)? Assim foi se tornando famosa pela alegria de seus desfiles, alegria que ficou marcada por seus sambas.

Todo mundo já cantou um samba da Ilha pelo menos uma vez na vida, mesmo sem saber. Basta lembrar os três mais famosos: É Hoje! (“A minha alegria atravessou o mar…”); Amanhã (“A cigana leu o meu destino…”) ou De bar em bar, Didi um poeta (“Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre…”), que homenageava um de seus maiores compositores.

Essa mistura de enredos inesperados e sambas sem igual, na voz de puxadores também incomuns, em especial Aroldo Melodia e Quinho, volta ao grupo principal com uma mistura explosiva. Este ano a Ilha vai pirar de vez. Primeiro, levando à avenida um clássico da literatura universal, o Dom Quixote de La Mancha, o que já não é usual. Se não fosse pouco, usará o fidalgo espanhol como instrumento para desfilar a loucura na Sapucaí. E mais, pelas mãos da não menos alucinante carnavalesca Rosa Magalhães. Loucura é com ela mesmo. Entre outras coisas, Rosa inventou o caos barroco.

A partir de situações improváveis, porém reais, como tupinambás na corte francesa ou camelos no sertão do Ceará, Rosa constrói épicos com detalhamento obsessivo-compulsivo e requintes de esquizofrenia em desfiles que colam na mente da gente para sempre. Vai fazer isso de novo, claro. Esse coquetel, de qualquer forma, é coerente com a personalidade da Ilha que, afinal, é o Dom Quixote do carnaval: digno, engraçado, persistente, simpático,sonhador, simples, fascinante, admirado e louco, muito louco. Podia ser o símbolo da escola.

Abaixo, relaciono onze, e apenas onze, sambas dos 27 desfiles que a União fez no grupo principal. São só sugestões para quem quer conhecer ou recordar um pouco desta tradição de lindas composições que a escola construiu. Parece muito, onze em 27, mas quem se atrever a ouvir todos no site da escola (www.gresuniaodailha.com.br) vai encontrar ainda mais e entender porque a Ilha conquistou essa fama.

1977 – Domingo

1978 – O amanhã

1980 – Bom, bonito e barato

1982 – É hoje!

1984 – Quem pode, pode; quem não pode…

1985 – Um herói, um enredo, uma canção

1989 – Festa profana

1991 – De bar em bar, Didi, um poeta

1992 – Sou mais minha ilha!

1996 – A viagem da pintada encantada

1998 – Fatumbi, Ilha de todos os santos

Ilha do Governador durante desfile no Rio de Janeiro - Foto: Arquivo/AE

Ilha do Governador durante desfile no Rio de Janeiro - Foto: Arquivo/AE

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