“Somos indispensáveis para o Carnaval”, diz Paulo Serdan

Estadão

13 de janeiro de 2010 | 18h00

Uma importante corrente de sambistas tradicionais de São Paulo até hoje não aceita o ingresso na disputa pelo título do Carnaval da capital escolas de sambas oriundas de torcidas organizadas de clubes de futebol.

Dois ícones históricos das arquibancadas paulistas – seja pela festa dentro dos estádios ou pela violência que afasta o torcedor comum das partidas, Gaviões da Fiel e Mancha Verde, que carregam multidões aos jogos do Sport Club Corinthians Paulista e da Sociedade Esportiva Palmeiras, são os maiores exemplos dessa migração do futebol para o samba.

Os sambistas tradicionais são duros e veementes: acreditam que parte dos componentes das Escolas de Samba que levam para a avenida as cores de um time de futebol, carregam junto o espírito competitivo das arquibancadas, muitas vezes marcadas por violência.

Além de Gaviões da Fiel e Mancha Verde, Dragões da Real, do São Paulo, Camisa 12, do Corinthians, Torcida Jovem, do Santos, e a TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) estão espalhadas entre escolas e blocos carnavalescos da capital paulista.

A violência no carnaval assusta o mundo do samba. Em fevereiro de 2003, a Torcida Independente, do São Paulo, que também começava a trilhar seu caminho no carnaval, se envolveu em um conflito com os corintianos do Bloco Pavilhão 9, no Anhembi.

Um integrante da torcida são-paulina foi morto. Horas depois, os torcedores da Independente que voltavam do desfile desviaram os ônibus e passaram em frente à quadra da Mancha Verde, na Barra Funda e mais uma vez houve confronto. A briga entre torcedores de futebol em um dia de carnaval deixou um saldo de mais dois mortos, um de cada agremiação.

Violência ficou no passado

Para amenizar a situação e tranquilizar os sambistas “da antiga”, depois de uma sugestão de meu amigo e jornalista Glauco de Pierri, que acrescentou esse texto com ricas informações, o blog conversou com um dos maiores ícones do mundo das torcidas organizadas, Paulo Rogério de Aquino, conhecido como Paulo Serdan.

Palmeirense fanático, transformou a torcida organizada do Palmeiras em uma das maiores – e mais temidas – do Brasil. Hoje, Serdan está com 42 anos, afastou-se um pouca da torcida onde ainda é o ‘presidente de honra’ e dedica-se integralmente ao carnaval, onde é presidente da Superliga das Escolas de Samba da capital e também é o mandatário da Escola de Samba Mancha Verde, criada em 1995, como bloco carnavalesco, numa época em que as organizadas foram quase extintas dos estádios da capital por conta da onda de violência.

A exemplo da Gaviões da Fiel, que desde os anos 1980 já batucava entre as grandes agremiações de samba da capital – a escola formada por corintianos foi quatro vezes campeã no Anhembi, em 1995, 1999, 2002 e 2003 – , a Mancha Verde cresceu. A partir de 2000, virou escola de samba e subiu, degrau por degrau, até atingir o Grupo Especial do carnaval.

Depois de uma série de polêmicas com as torcidas, como a criação de um grupo exclusivo para as torcidas – que durou apenas um ano e depois naufragou, Paulo Serdan acredita que as escolas nascidas nos estádios de futebol foram importantíssimas para o crescimento do carnaval em São Paulo.

Viviane Araújo é a rainha de bateria da Mancha Verde há alguns carnavais - Foto: Arquivo/AE

Viviane Araújo é a rainha de bateria da Mancha Verde há alguns carnavais - Foto: Arquivo/AE

Mancha e os Gaviões ainda são discriminados pelos tradicionais sambistas de São Paulo?
Já fomos mais discriminados no passado. Mas hoje, somos mais respeitados. Somos indispensáveis para o carnaval de São Paulo. Levamos mais público para o Anhembi. Antes da Mancha entrar par ao Grupo de Elite, apenas um dia lotava o Anhembi, que era quando a Gaviões desfilava. Agora não. Os dois dias lotam. Também acrescentamos no quesito espetáculo. Os desfiles estão mais grandiosos. Os próprios sambistas mais antigos já aceitam mais a nossa participação.

No mundo samba é comum o folião beijar o pavilhão da escola adversária. Você beijaria a bandeira dos Gaviões da Fiel?
Durante um evento, já beijei no Anhembi (solta uma gargalhada). Na verdade, não vou ser hipócrita. Não vou lá na quadra dos Gaviões para não trazer problemas para a própria escola. O pessoal vai ficar preocupado comigo. Então, acho melhor não ir. Mas tenho uma ótima relação com a direção deles. A cultura do samba é diferente do futebol.

Por que vocês não levam esse espírito cordial do samba para as arquibancadas?
A cultura do carnaval é diferente. No samba, não existe uma disputa direta. As 14 escolas entram na avenida como campeãs. Já no futebol a animosidade é mais aflorada. Para conseguir êxito, você depende praticamente de si. Mas todos nós nos relacionamos muito bem. É bom frisar que sou presidente da Superliga e fui eleito pelos Gaviões e Dragões da Real (São Paulo). Mostra que existe uma harmonia entre a gente.

A Mancha Verde vem para a disputa do título ou apenas irá participar do carnaval?
Em primeira lugar, a gente quer chegar na frente dos Gaviões (solta gargalhada de novo). Esse é nosso objetivo: ficar na frente deles. A gente vem para disputar o título sim. A cada ano, estamos melhorando. Esse ano, nosso enredo vai falar da educação. Temos tudo para chegar entre os primeiros.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.