Segunda Divisão vai ter desfiles de Primeira

Estadão

08 de janeiro de 2010 | 12h23

Três símbolos da mais pura tradição das escolas de samba de São Paulo irão disputar neste ano o Grupo de Acesso. Camisa Verde, Nenê de Vila Matilde e Unidos do Peruche  são as grandes protagonistas do chamado Campeonato da Segunda Divisão do Carnaval e principais candidatas pelas únicas duas vagas para o Grupo de Elite de 2011.

Juntas, estes três gigantes do Carnaval de São Paulo somam 17 títulos.

Só que de uns anos para cá, nem mesmo a força de suas comunidades e o reconhecido samba no pé, foram suficientes para mantê-las entre as principais agremiações do Carnaval da cidade.

A partir da década de 90, foram idas e vindas com o rebaixamento.  A Unidos do Peruche, fundada em 1956 por Seu Carlão e um grupo de dissidentes do Lavapés, foi a primeira destas grandes escolas de samba a cair. Já são sete quedas contabilizadas. Ninguém aguenta mais tanto sofrimento no bairro do Limão.

Já a Camisa Verde e Branco, escola criada em 1953, por Inocêncio Tobias,disputou o Grupo de Acesso por três vezes. Uma triste sina para uma comunidade que tanto se acostumou em soltar o grito de campeã. Como escola – a Camisa surgiu nos primeiros anos como cordão -, são nove campeonatos conquistados. 

A maior representante da Zona Leste sentiu o dissabor do rebaixamento, pela primeira vez, no Carnaval passado. Justamente no ano em que completou 60 anos de sua fundação. Seu Nenê, um imortal do Carnaval de São Paulo, não merecia ter vivido isso.

Para quem gosta de Carnaval e sabe da importância destas instituições, e triste vê-las nesta situação.   

O samba é quem perde. O samba só é samba quando escolas como Nenê, Camisa e Peruche estão bem.  

Seu Nenê e Carlão do Peruche, por exemplos, são os únicos sambistas da chamada primeira grande fase do Carnaval de São Paulo ainda vivos. Ambos com mais de 80 anos de idade. Os dois estavam presentes no momento em que os desfiles da cidade passaram a ganhar um caráter oficial, depois que o prefeito de São Paulo no final da década de 60, Faria Lima, reconheceu a importância das escolas de samba e resolveu adotar um tom mais profissional para os concursos.

Seis sambistas foram importantíssimos para essa transformação. Além de Seu Nenê e Carlão, Xangô, da Vila Maria; Inocêncio Tobias, da Camisa; Pé Rachado, da Vai-Vai; e Madrinha Eunice, da Sociedade Lavapés, estavam presentes no momento em que o prefeito assinou o decreto para a realização do Carnaval de 1968. Para muitos, esse foi um divisor de águas do Carnaval de São Paulo, que passou a adotar o regulamento dos desfiles do Rio de Janeiro.

Por causa da luta em prol do Carnaval, os três ganharam o o título de cardeais do samba.

Tento imaginar a dor de Seu Nenê e Seu Carlão. Nunca poderiam imginar que depois de tanto empenho, um dia iriam ver suas agremiações nesta situação.

Mas há quem diga que existe uma esperança.

Apesar das dificuldades financeiras, a atual diretoria das três escolas promete voltar com tudo neste ano. Tomara. O samba agradece. Sem Peruche, Nenê e Camisa no Grupo de Elite, o Carnaval de São Paulo fica mais triste. Voltem logo, por favor!

Seu Nenê fundou a escola que carrega o seu nome - Foto: Divulgação/Arquivo AE

Seu Nenê fundou a escola que carrega o seu nome - Foto: Divulgação/Arquivo AE

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.