Quando o samba era samba

Estadão

28 de dezembro de 2009 | 12h17

Como gostaria de ter vivido os tempos de Cartola. De ter tomado uma cachaça com Noel Rosa ou Adoniran Barbosa. De ter assistido, pendurado aos postes da avenida São João, como fazia um amigo meu de Barueri, aos memoráveis desfiles da década de 70 do Carnaval de São Paulo.

Por lá, se apresentavam potências como Vai-Vai, Nenê da Vila Matilde, Camisa Verde Branco, Mocidade Alegre, entre outras grandes instituições.

Infelizmente, sou do tempo em que os desfiles se transformaram em produtos comerciais. Talvez, tenha presenciado um dos últimos suspiros do verdadeiro e bom carnaval, em 1988.

Naquele ano, a verde e branco da Barra Funda trouxe como enredo a noite paulistana. Foi um grande desfile, que emocionou a Tiradentes e brindou o público com um samba-enredo primoroso.

Há pouco mais de duas semanas, ao fazer uma reportagem para o Jornal da Tarde, tive a oportunidade de voltar um pouco no tempo.

Fui entrevistar dona Rose, figura doce e neta da grande matriarca de nosso Carnaval.

Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, se estivesse ainda viva, teria completado 100 anos, no dia 14 de outubro.

eunice

Madrinha Eunice, fundadadora da Lavapés - Foto: Arquivo/AE

Filha de escravos, Madrinha Eunice, desde pequena, tinha verdadeira loucura pelo samba. Em Piracicaba, onde nasceu, era sempre vista em rodas de cantigas.
Sempre com uma baqueta na mão. Quem a conhecia já sabia que ela havia nascido para viver no mundo do samba.

Na década de 30, já vivendo em São Paulo, foi com o marido, um italiano, e também com o irmão, assistir aos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, no ‘palco sagrado’ da Praça Onze.

Ficou encantada com o que viu. Quis fundar uma escola de samba somente para ela. Um ano depois da visita ao Rio, em 1937, Madrinha Eunice, o marido e o irmão criavam na rua da Glória, no bairro da Liberdade, a Sociedade Recreativa Beneficente Escola de Samba Lavapés – escola mais antiga em atividade de São Paulo.

A agremiação viveu seu apogeu nos carnavais dos anos de 40 e 50. Compositora de mão cheia, a escola de samba da Madrinha Eunice foi 19 vezes campeã. Não tinha para ninguém.

Em 1995, aos 87 anos, a matriarca do samba de São Paulo partiu. Foi se juntar no céu a bambas como Cartola, Noel e Adoniran.
Antes de morrer, ela havia deixado para sua neta uma missão: de manter viva a sua escola de samba.

Mãe de sete filhos, vivendo em um casa que mais parece uma oficina de escola de samba, Rose mantem vivo, entre uma produção e outra de salgados e doces, um dos maiores símbolos da cultura de São Paulo.

Com poucos recursos, ela coloca a escola na rua no dia 15 para desfilar pelo terceiro grupo do campeonato da União das Escolas de Samba de São Paulo (Uesp). Esse torneio é considerado a quinta divisão do Carnaval da capital.  “Meu maior sonho é colocar a escola novamente no grupo de elite”, planeja a neta da matriarca do samba.

Afinal de contas, Madrinha Eunice já dizia: “A Lavapés teve começo, mas não terá fim”.

Tudo o que sabemos sobre:

história

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.