Os reis do apito

Estadão

31 de janeiro de 2010 | 22h09

Os mestres Augusto, Tadeu e Tornado fazendo um 'ensaio' no Sambódromo do Anhembi - Foto: Valéria Gonçalves/AE

Os mestres Augusto, Tadeu e Tornado fazendo um 'ensaio' no Sambódromo do Anhembi - Foto: Valéria Gonçalves/AE

Mestre Tadeu, de 58 anos, é uma pessoa de poucos sorrisos. “Sou um sambista à moda antiga e muito conservador. Para mim, carnaval é coisa séria”, vai logo avisando o diretor da Vai-Vai, que comanda a bateria da escola do Bexiga há nada menos do que 38 anos.

O jeito ranzinza, reconhecido por ele próprio, é deixado de lado quando ele revela um sonho recorrente. “Um dia quero chegar no sambódromo de helicóptero e descer na avenida de rapel. Quando chegar na pista, irei soar meu apito e minha bateria começará a tocar. Aí, vou me sentir realizado”, confessa Tadeu.

O mestre da escola da Saracura foi o primeiro a chegar num encontro promovido pelo Jornal da Tarde, na semana passada, com outros dois mestres de bateria: mestre Tornado, de 47 anos, da Rosas de Ouro, e mestre Augusto, 44 anos, da X-9 Paulistana.

O local escolhido para o bate-papo foi um palco sagrado para os três: a passarela do samba do Anhembi. “Aqui, é onde a gente vive, talvez, os melhores momentos de nossas vidas”, admite o mestre Tornado. “A bateria é o coração da escola”, completa Augusto.

Os três mestres compartilham da mesma opinião quando reclamam dos rumos do carnaval. Principalmente no que diz respeito a novos conceitos, como por exemplo, a coreografia incorporada por muitas baterias. “Sou totalmente contra. Se a bateria faz uma coreografia, a escola está tendo que parar. Parando para mim, ela perde ponto na harmonia, pois a evolução da escola está parada”, diz mestre Tornado.

Além de ser contra a coreografia, mestre Tadeu é contra a paradinha. “Minha bateria é tradicional. Tem uma batida diferente de todas as escolas. Quem ouvi a Vai-Vai de longe, sabe que é ela que está tocando. Mas esse ano vou fazer uma paradinha por conta das comemorações dos 80 anos da escola”, avisa. Já mestre Augusto diz que aderiu a coreografia para não ficar diferente das demais candidatas. “Se você não faz, corre o risco de perder ponto. Infelizmente”, completa.

Sobre quem vai ganhar o campeonato, os três procuram manter um discurso pés no chão. Mas Tornado diz que chegou a hora da Rosas de Ouro ganhar um carnaval. “Estamos com um nó na garganta. A gente está merecendo o título há alguns anos”, afirma.

Já Tadeu lembra que a Vai-Vai sempre entra como uma das favoritas. “Mas o carnaval é definido na avenida. Não adianta falar muito antes. Só que a Vai-Vai se preparou muito e vem com fome de título, com todo respeito as coirmãs”, finaliza o mestre de bateria mais velho de São Paulo.

* Esse encontro foi promovido pelo amigo e jornalista Candinho Neto e produzido na edição de sábado no JT.

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