Os cardeais do samba

Estadão

14 de janeiro de 2010 | 20h12

Seu Nenê e Seu Carlão são remanescentes da primeira leva de grandes sambistas do Carnaval de São Paulo - Foto: Ernesto Rodrigues/AE

Seu Nenê e Seu Carlão são remanescentes da primeira leva de grandes sambistas do Carnaval de São Paulo - Foto: Ernesto Rodrigues/AE

O ano de 1968 é considerado um marco para Carnaval de São Paulo. Foi no final desta década, quando o Brasil vivia o auge da Ditadura Militar, que as Escolas de Samba de São Paulo começaram a ganhar um tratamento profissional.

 Os desfiles, que até então eram realizados sem uma grande infra-estrutura, tiveram a Avenida São João como palco. Tanto o campeonato de Cordões como o das Escolas de Samba ganharam arquibancadas, regulamento e finalmente foram oficializados pela Prefeitura.

Seis sambistas são considerados os grandes responsáveis por essa transformação: Xangô da Vila Maria, Pé Rachado do Vai- Vai, Madrinha Eunice da Lavapés, Inocêncio Mulata da Camisa Verde e Branco , Nenê da Vila Matilde e Carlão do Peruche. Cansados de promover para os padrões da época grandes espetáculos, mas sem grandes receitas, os seis sambistas resolveram peitar o poder público. Só sossegaram quando finalmente conseguiram marcar uma audiência com o prefeito da época, o carioca Faria Lima.

Nascido em Vila Isabel, terra do poeta Noel Rosa, o político, que reza a lenda tinha samba na veia, teria ficado sensibilizado com a precária situação que eram realizados os desfiles e resolveu dar um empurrão e ajudar financeiramente o Carnaval de São Paulo.

Deste seleto grupo de bambas, chamados pela Imprensa da época como os Cardeais do Samba, apenas dois continuam vivos: Seu Nenê, de 88 anos, e Seu Carlão do Peruche, com 79.

Na tarde da última quarta-feira, na residência de Seu Nenê, em uma bucólica rua da zona leste, o Jornal da Tarde reuniu os dois sambistas para um bate-papo. O encontro, que será publicado no JT na edição deste sábado, dia 16, foi marcado por grande emoção. Os mestres admitiram sentir saudades dos tempos em que o Carnaval da cidade ainda era realizado de uma forma despretensiosa.

“Antigamente, as pessoas desfilavam para se divertir e acima de tudo defender a sua comunidade. Hoje não. O Carnaval se transformou num grande campeonato. Falta a irreverência de antigamente e o amor pelo pavilhão (bandeira) da escola”, definiu seu Carlão. Já seu Nenê, prefere esquecer que a agremiação que ajudou a fundar e que ainda carrega o seu nome vai disputar neste ano o Grupo de Acesso, a chamada Segunda Divisão do Carnaval de São Paulo. “Prefiro me lembrar das grandes conquistas. O golpe do ano passado foi muito duro e difícil de ser digerido. Mas vamos tentar subir novamente”, avisa. 

O sábio seu Nenê tem razão. É hora de olhar para frente.

O samba só é samba por exisitir personagens imortais como ele e seu Carlão.

Veja a reportagem publicada no JT:

http://txt.jt.com.br/editorias/2010/01/16/ger-1.94.4.20100116.24.1.xml

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