“Enredo sobre Noel Rosa vai ser o da minha vida”, diz Martinho da Vila

Estadão

02 Fevereiro 2010 | 00h25

Martinho da Vila em desfile de sua Vila Isabel - Foto Marcos Paulo-AE

Martinho da Vila em desfile de sua Vila Isabel - Foto Marcos Paulo-AE

O desfile da Vila Isabel de 1988 é considerado por muitos críticos como um dos maiores de todos os tempos do carnaval carioca. Naquele ano, a azul e branco da Vila festejou os 100 anos da Abolição dos Escravos, com o enredo Kizomba – Festa da Raça. Martinho da Vila foi o autor do enredo, que entrou para a história. 

Vinte e dois anos depois, um dos principais sambistas do Brasil volta a assinar o enredo e também o samba-enredo de sua escola do coração. A escola festeja na Sapucaí o centenário de nascimento de um dos maiores artistas populares do século passado, nascido no bucólico bairro carioca de Vila Isabel, o genial Noel Rosa.

“Esse enredo sobre a vida de Noel Rosa vai ser o da minha vida.  A gente vai fazer um desfile emotivo”, avisa o compositor.

Martinho da Vila vai comemorar 72 anos de idade no dia 12 de fevereiro, dois dias antes da Vila entrar para avenida. “Vai cair na sexta-feira de carnaval. Não poderia ter data melhor para fazer aniversário”, diz empolgado o sambista.

Enquanto o carnaval não chega, Martinho faz dois shows neste final de semana, na lendária casa de espetáculos Canecão, no Rio. “É um show à moda antiga. Com sambas-enredos e marchinhas. Vou leva um pessoal da Vila para tocar lá”, antecipa Martinho da Vila ao Samba de Primeira, por telefone.

O enredo sobre o Noel Rosa é o da sua vida?
Com certeza. No ano passado, a diretoria me chamou e disse que eu seria o enredo da escola. Que iriam fazer uma homenagem para mim. Fiquei muito honrado e confesso que gostaria de ser um dia enredo de minha escola de coração. Mas falei para eles: “O ano que vem (2010) é o centenário do Noel. Precisamos falar dele, poeta maior de nossa Vila Isabel. Numa próxima, vocês falam de mim.” O enredo sobre a vida de Noel Rosa vai ser o da minha vida.

Quais as fases da vida do Noel que você priorizou no enredo?
O Noel teve uma passagem por essa vida muito rápida. Morreu antes de completar 27 anos de idade. Vamos ressaltar tudo que aconteceu no Brasil na época em que ele viveu, nas décadas de 20 e 30. O Noel morreu em pleno carnaval. Nosso maior desafio é fazer ninguém chorar na avenida de tristeza. A gente pretende fazer um desfile emotivo. Acho que está faltando isso no carnaval. Acho que vamos conseguir. Como todas as grandes escolas, vamos entrar na avenida para conquistar o título. Mas acho que a gente entra bem credenciado por conta do tema.

Você tem acompanhado o carnaval de São Paulo?
Claro que sim! Torço aí em São Paulo para a Tom Maior (a escola paulistana, fundada em 1973, tem esse nome inspirado em uma música de Martinho da Vila). Adoro essa rapaziada da Tom. Uma escola jovem, com gente de universidade e com sangue novo. De longe, vou estar torcendo por eles.

Como você vê o carnaval de São Paulo?
Não vejo uma diferença muito grande em relação ao do Rio. A diferença é que aqui no Rio existe um envolvimento de toda população. Mais investimento. Acho que é uma coisa cultural. Quando você pergunta para um carioca qual seu time de futebol de coração, ele já emenda também a sua escola preferida. Tipo assim: ‘que time você torce? O cara responde: Flamengo e Mangueira’. Mas os desfiles e as escolas de samba de São Paulo cresceram muito. Acho o carnaval de São Paulo muito legal.