Camisa Verde e Branco precisa voltar ao seu devido lugar

Estadão

05 Fevereiro 2010 | 04h03

Tenho carinho pela Camisa Verde e Branco. Não sei como começou essa admiração. Talvez minha primeira referência da escola, muitos antes de saber quem foram os grandes baluartes da Verde Branco, seja meu grande ídolo no futebol, o ex-jogador Serginho Chulapa.

Até a década de 80, o irreverente ex-jogador desfilava todos os anos na Camisa. Como torcedor do Santos e já um amante do samba, achava que deveria torcer pela mesma escola em que desfilava meu ídolo. No final do ano passado, ao produzir uma reportagem especial para o Jornal da Tarde, Chulapa me confidenciou ter preguiça de ir para avenida defender a sua escola de coração.

“Hoje, a avenida está muito cumprida. Não tenho mais pique para tanto”, justificou Chulapa, com seu conhecido bom humor.   

Com o passar dos anos, fui conhecendo a verdadeira história desta agremiação, que na minha opinião é um dos três principais berços do carnaval de São Paulo. Com todo respeito às demais escolas, junto a Camisa neste eldorado do samba a Vai-Vai e Nenê da Vila Matilde.

Fundada em 1953 por Inocêncio Tobias, o Mulata, o Camisa era uma dissidência do Grêmio Recreativo Barra Funda, que foi criado em 1914 pelo patriarca do samba, o seu Dionísio Barbosa.

Nas duas primeiras décadas de existência, o Camisa se tornou o maior campeão do campeonato de Cordões. Só que, no meio da década de 30, o cordão desapareceu. Só foi voltar em 1953 com novo nome. Nos anos seguintes, o cordão da Barra Funda passou rivalizar com o Vai-Vai, que também na época era cordão.

Em 1973, as duas instituições se transformaram em escolas de samba. Os campeonatos de cordão haviam perdido a sua força e os desfiles das escolas de samba, que já contavam com gigantes como Nenê da Vila Matilde, Peruche, Mocidade Alegre e Unidos de Vila Maria, eram mais badalados.

Por quase 20 anos, já como escolas, Camisa e Vai-Vai mantiveram boa parte da supremacia do carnaval de São Paulo. A Vai-Vai ganhou 13 campeonatos, enquanto a Camisa nove.  São as duas maiores campeãs.

Só que, a partir da década de 90, por brigas internas pelo comando da escola, a Camisa começa a viver seu inferno astral. Foram três quedas desde então.

No meio desta semana, estive no barracão da escola. Saí de lá até otimista com a possibilidade da Camisa Verde e Branco retornar ao Grupo de Elite do carnaval de São Paulo, o seu verdadeiro lugar.

Embora o presidente da escola Maninho tenha reverenciado muito a sua comunidade durante a entrevista –  ele acredita que a escola só vai voltar para Especial com a força de seu povo -, ele me deixou um pouco intrigado. Disse que vai deixar a presidência no final do mandato, que termina no começo de abril.

“Não fico aqui nem se me derem 100 mil reais por mês. Cansei”, confessou. A amargura de Maninho me preocupou. Isso há alguns anos seria inimaginável. Ter a caneta de presidente da Camisa era motivo de honra e orgulho. Só que Maninho pensa diferente. Ele deve ter seus motivos. Uma pena e que a Camisa volte logo a ser grande. O desfile da Especial perde muito de seu brilho sem ela na avenida.

Apesar de todas quedas, a sua comunidade pé no chão continua muito forte. Todos os ensaios, que antecedem o carnaval, estão sempre lotados. Ir ao templo sagrado da quadra da Camisa é como voltar ao passado, de um período saudoso e glorioso do carnaval de São Paulo, que infelizmente não volta mais.

Escultor trabalha no barracão da Camisa - Foto: Clayton Freitas/AE

Escultor trabalha no barracão da Camisa - Foto: Clayton Freitas/AE

Veja o link da matéria publicada na edição de hoje do Jornal da Tarde:

http://txt.jt.com.br/editorias/2010/02/05/ger-1.94.4.20100205.5.1.xml