Adoniran: o poeta esquecido

Estadão

03 de janeiro de 2010 | 01h56

Considerado por muitos como o maior sambista de todos os tempos de São Paulo, mestre Adoniran Barbosa não será lembrado neste Carnaval. Nenhuma das 14 escolas do grupo especial irá levar para avenida a vida deste baluarte, que narrou como poucos o cotidiano de nossa cidade. Cidade que ele tanto amou, reverenciou e retratou em seus versos, imortalizados em obras-primas como Saudosa Maloca e Trem das Onze.

2010 não vai ser um ano qualquer. Vai ser o ano que irá marcar o centenário de nascimento de Adoniran Barbosa.

Adoniran Barbosa, símbolo de São Paulo - Foto: Arquivo/AE

Adoniran Barbosa, símbolo de São Paulo - Foto: Arquivo/AE

Filho de imigrantes italianos, João Rubinato nasceu no dia 6 de agosto de 1910, na cidade de Valinhos. Antes de se tornar o grande compositor que foi, Adoniran ainda viveu em Jundiá e Santo André.

Mas foi na Terra da Garoa que despontou como artista. Deu os  primeiros passos em programas de rádio. Criou diversos personagens. O mais conhecido e popular foi o lendário Charutinho. Mas foi na década de 50 que foi reconhecido como compositor, depois que o conjunto Demônios da Garoa o regravou.
Passou a vida contando histórias. Foi colecionador de grandes amigos, com sua forma simples de falar. Era um frequentador assíduo das cantinas do lendário bairro do Bexiga e dos botecos da região central da cidade.

Morreu em 1982, aos 72 anos de idade.

O próximo carnaval seria uma ótima oportunidade para reverencia-lo. Mostrar, principalmente para os mais jovens quem foi Adoniran.

A Vai-Vai jura que tentou. Ensaiou fazer do mestre o seu enredo. Mas esbarrou na falta de patrocínio. Pelo menos, essa foi a versão oficial. Infelizmente, os desfiles de hoje são encomendados. A grande maioria é comercial. A história, poesia e conteúdo são deixados de lado.

Que o diga outro mestre, Cartola. Em 2008, ano que marcou o centenário de nascimento do fundador da verde e rosa, a direção da Mangueira em nome de alguns trocados (leia-se R$ 3 milhões de patrocínio) resolveu falar de Recife ao invés de contar a vida daquele que te criou, deu o seu nome e ainda escolheu as suas cores. Não que Recife não merecesse uma homenagem. Muito pelo contrário. A homenagem foi realizada fora de hora. Em 2008, o enredo da Mangueira deveria ter sido escolhido por decreto: era para ser contada a vida de Angenor de Oliveira.

Mestre Cartola também não vou lembrado em seu centenário - Foto: Divulgação/Arquivo AE

Mestre Cartola também não vou lembrado em seu centenário - Foto: Divulgação/Arquivo AE

 

Agora, a história se repete em São Paulo. É claro que Adoniran nunca teve uma ligação com nenhuma escola da cidade, a exemplo de Cartola, mas merecia uma homenagem. Uma pena! O público de São Paulo que perde.

Em tempo: Nem tudo está perdido. A escola carioca Unidos de Vila Isabel terá como enredo neste ano a vida e a obra de Noel Rosa.

2010 também irá marcar o centenário do Poeta da Vila, que ganhou lindo samba-enredo de autoria de outro bamba, o grande Martinho da Vila.

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