A vez dos pratas da casa

Estadão

10 Fevereiro 2010 | 02h24

O diretor-geral do carnaval da Vai-Vai, Lourival Almeida Campos, de 36 anos, é neto de um dos fundadores da escola. Cresceu e aprendeu a amar o samba no bairro do Bexiga. Cláudio Roberto, 35, tem trajetória parecida. Antes de assumir a direção do barracão da agremiação, tocou por muitos anos na bateria do mestre Tadeu. Já o historiador Fernando Penteado, 62, nem lembra mais quanto tempo está na escola. “Acho que nasci dentro dela”, diz.

Os três fazem parte do contexto da nova tendência do carnaval de São Paulo. Ao invés de pagar fortunas para os carnavalescos desenvolver seus desfiles, as escolas de samba estão começando a montar comissão, formada por gente da própria comunidade.

“Quando você forma uma comissão como essa, você descentraliza o poder. A minha, por exemplo, é motivo de orgulho. Todos, sem exceção, têm uma origem dentro da escola. Nosso carnaval não poderia estar entregue em melhores mãos”, afirma o presidente Thobias, da Vai-Vai.

A Águia de Ouro e Mocidade Alegre também montaram comissões formadas por pessoas com fortes ligações na escola. “Nosso carnaval é feito por nós mesmos. A Mocidade é uma escola de muita emoção e esse sentimento é refletido no barracão e na avenida”, afirma a presidente da Mocidade, Solange Bichara.

Já o carnavalesco da Águia de Ouro, Sérgio Caputo, o Gall, acredita que trabalhar em conjunto é melhor. “Juntamos todas as ideias em um único bolo. O resultado se torna mais expressivo.”

A comissão de carnaval da Vai-Vai é a maior de São Paulo, com 11 pessoas. Além dos personagens citados no início da reportagem, estão na escola Edison Paulino, o Buiú, 55, Marco Januário, 32, Janaína Penteado, 34, Adaílson Júnior, 37, Miguel Biondi, 55, Renato Maluf, 38, e Neguitão da Vai-Vai, 30.

 “Aumenta mais nossa identidade. A Vai-Vai foi muito feliz com todos os carnavalescos, que fazem parte da nossa história. Mas hoje quem toca nossa escola é nossa comunidade”, diz Lourival.Para o diretor-geral de Harmonia da Vai-Vai, o Buiú, nenhuma outra agremiação consegue tirar algum componente do Bexiga por dinheiro. “Esse é nosso diferencial”, afirma. “Sabemos valorizar nosso passado, nosso presente e nosso futuro”, completa Cláudio.

Mesmo com esse time comandando o carnaval da escola, tudo é desenvolvido em perfeita harmonia, segundo os integrantes. Prevalece o bom senso na hora de tomar decisões. “Existe a discussão. Mas no final, é mantido aquilo que for melhor para escola”, avisa Janaína Penteado.Para o tesoureiro Renato Maluf, dirigir a Vai-Vai é como comandar uma empresa.

“Essa é nossa filosofia. Mas por incrível que pareça ninguém dessa comissão é remunerado. Todos trabalham por amor incondicional”, diz o tesoureiro Renato Maluf.

*Reportagem publicada na edição de hoje do Jornal da Tarde

Comissão de carnaval da Vai-Vai é formada dentro do Bexiga - Foto: Ivan Dias/AE

Comissão de carnaval da Vai-Vai é formada dentro do Bexiga - Foto: Ivan Dias/AE