"Viver sem carro", por Renato Modernell
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"Viver sem carro", por Renato Modernell

Ricardo Lombardi

19 de fevereiro de 2009 | 06h04

Circular: “São Paulo atingiu 6 milhões de veículos, quase a frota da Argentina inteira. Vivemos em uma cidade feita para servir sua majestade, o carro. O resto é silêncio. Ninguém dá muita bola para o Dia Mundial sem Carro, 22 de setembro.

Mas o meu dia foi 19 de outubro. Corria o ano de 2004. Numa manhã quente, saí de uma concessionária deixando lá para sempre o último representante da dinastia de meus oito veículos automotores, iniciada nos anos 70, com um Fusca amarelo. Fui à padaria mais próxima para me refazer daquele gesto extremo. Sentia-me só. Um amigo fizera de tudo para me demover da idéia de adotar a vida de pedestre:

— Esta cidade já é um horror com carro. Sem ele, é inviável.

Mais de três anos se passaram desde minha Revolução de Outubro. A sensação inicial de desamparo não durou muito. Logo tratei de organizar a vida de outro modo. Não sou tão tolo a ponto de insinuar que, tendo renunciado ao carro, colaboro para reverter o efeito-estufa. Quando muito, atenuo o efeito-estofamento: aquele mau-humor que eu tinha antes, a três por quatro, ao ficar preso no trânsito.

A perfeição não existe. As calçadas de São Paulo, inclinadas, estreitas, imundas, esburacadas, atravancadas por mendigos e camelôs, cheias de degraus, são trilhas dantescas em comparação com as das ruas planas de Buenos Aires, Paris, Londres, Nova York, Tóquio e (se me permitem) Rio Grande. Mas não estou só. Tenho conhecido diversas pessoas que também tiveram carro a vida toda, e aí deram um basta. Ou deram um tempo, e acabaram gostando.

Mudando-se a forma de deslocamento, muda-se jeito de olhar o mundo. Quando se anda a pé, encontra-se pérolas até no caos de São Paulo: aromáticas padarias, refrescantes quitandas, penumbrosos antiquários, aconchegantes botecos, faustosos cemitérios, coloridas feiras, galerias babilônicas, descolados sebos, reluzentes vitrinas cheias de instrumentos musicais. Surge uma outra cidade que antes estava envolta na bruma.

Quanto nos tornamos motoristas, aos poucos nos rendemos a um ambiente de alavancas e pedais; botões e faróis; guardadores e guardas; espelhos e semáforos; impostos e multas. Sem sentir, sucateamos as lembranças de uma época em que andávamos por aí mais leves e disponíveis.

Andar a pé tem desvantagens, claro. O pedestre está mais exposto, por exemplo, ao cheiro de gasolina que existe nas ruas. Mas pior que isso, creio, é confundir o odor acre do interior de um carro novo (mistura de cola, tinta, plástico, resinas) com o perfume da prosperidade.

Andar a pé não significa tornar-se franciscano. Assim como o sonho de consumo de um motorista pode ser uma Ferrari, o do pedestre pode ser uma palmilha de silicone. Não vejo problema nisso.

Não sei se emagreci ou engordei desde minha Revolução de Outubro. Um peregrino urbano deve aprender a resistir à tentação de entrar em toda padaria que encontra pela frente. A ele já é concedida uma forma de felicidade que se tornou rara, hoje em dia: poder ir ao cinema por impulso, ao sentir cheiro de pipoca.”

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