Modernell e a "notícia como fábula"
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Modernell e a "notícia como fábula"

Ricardo Lombardi

21 de outubro de 2008 | 07h23

Para jornalistas, estudantes de jornalismo e curiosos em geral, recomendo o texto “

” (arquivo em PDF). É a dissertação de mestrado defendida pelo jornalista e escritor Renato Modernell na ECA-USP. “O foco dirige-se ao âmbito jornalístico, com base na análise de textos publicados em diferentes veículos. Parte da hipótese de que aquilo que consideramos ‘fato’ e ‘imaginação’ tem limites mais tênues e permeáveis do que comumente se supõe”, escreveu Modernell. Além de ser um tema muito interessante, o autor é craque na arte de escrever, o que torna a leitura muito prazerosa. Abaixo, um trecho curto:

“(…)Dizemos ‘dia’ e ‘noite’ como se houvesse interruptores binários nas posições ‘ligado e ‘desligado’. Lá fora de nossas janelas, entretanto, essas fases se misturam. Sabemos que, entre o dia e a noite, há momentos transitórios e peculiares, embora atentemos a eles bem menos que nossos ancestrais. Em geral, durante os crespúsculos matutino e vespertino, estamos imersos em sonhos ou hipnotizados diante da tela do computador, onde palavras e imagens deslizam sob luminosidade constante.

O jornalista, como o condutor de metrô, está entre os trabalhadores mais expostos a esse embotamento dos sentidos. Atrelado a horários, ao cipoal dos fluxos, às pressões e cobranças da selva corporativa, ele vê sua atividade atingir a tensão máxima justamente no momento do entardecer –- quando seu bisavô camponês costumava largar a enxada e fazer o escalda-pés, ciente de que era hora de descarregar as baterias. Não é de estranhar, portanto, que o texto produzido nessas condições seja desprovido dos matizes próprios do lusco-fusco. Realidade e ficção, para o homem que atua na imprensa convencional, tendem a ser categorias independentes, com fronteira fixa, como se o dia e a noite não tivessem passagens gradativas, mas mudanças bruscas, à semelhança das luzes fluorescentes do castelo.

Demonstraremos que, lá fora da redação, as coisas não são bem assim. Grande parte dos fenômenos transcorre sob uma luz crepuscular, que não sabemos bem de onde vem – e no entanto pode ser mais reveladora (ou instigante) do que aquela do mundo das certezas. Investigaremos, no plano das frases e do discurso, como o fato pode engendrar a ficção, e vice-versa, conforme sugere o signo taoísta. O foco deste trabalho são os mecanismos que inserem fibras ficcionais ao material editorial vendido nas bancas à guisa de textos noticiosos. (…)”

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