"Tenho perfeita consciência de que a função do jornalista é atrair a atenção dos leitores para os anúncios"
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"Tenho perfeita consciência de que a função do jornalista é atrair a atenção dos leitores para os anúncios"

Ricardo Lombardi

09 de fevereiro de 2009 | 06h03

Circular: “1972

21 de março

Somos convidados para uma festa na Grosvenor House, organizada para comemorar o décimo aniversário da revista em cores do Sunday Times. O convite fala de uma década de realizações criativas e da oportunidade de estar com algumas das pessoas que a engrandeceram. Tudo muito pretensioso, mas fomos na expectativa de encontrar bons escritores e pessoas interessantes. Em vez disso, damos de cara com uns 2000 executivos de terno azul. Há menos de vinte mulheres presentes (precisei fazer súplicas veementes para que o meu convite fosse estendido a Kathleen) porque isso de festejar em meio aos despojos — o que logo revela ser a finalidade daquele evento — é uma tradicional prerrogativa masculina. Lord Thomson faz um discurso em que se refere ao aumento fenomenal da receita de publicidade que a revista conquistou. Não menciona o editor ou qualquer das pessoas que escreveram para a revista. O vice-presidente, J. Walter Thompson, responde ao brinde. Também faz elogios rasgados às oportunidades que a revista representa para a indústria da publicidade, e não menciona o nome de qualquer pessoa que tenha escrito nas suas páginas. Isso me deixa mais indignado do que devia. Tenho perfeita consciência de que a função do jornalista é atrair a atenção dos leitores para os anúncios, e que quando escrevo para a New Yorker (por exemplo) o meu dever fundamental é vender vodka. Mas o que mais me deixa horrorizado é esta nova moda conservadora de se gabar dessas coisas, supondo que não exista mais a menor necessidade de fingir que os escritores sejam mais do que meros adjuntos da indústria publicitária.

Quando os convidados começam a se dispersar, Peter Cook sobe ao pódio (cujo microfone já fora desligado) e começa uma longa arenga alcoolizada, dizendo que a empresa de Thomson tinha demonstrado uma ‘puta estupidez e uma grosseria fodida’ ao não permitir que os convidados trouxessem as suas mulheres ou amantes. Provoca pouco impacto: e de qualquer maneira, a questão é secundária.”

(Trecho do diário de Kenneth Tynan (foto), publicado pela Piauí. Comprei os originais na Amazon. Valeu a pena).

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